Saúde

Saúde no centro da crise climática: estudo global revela que governos falham em transformar planos em ação
Análise de políticas de 198 países mostra que a saúde já aparece no discurso climático mundial, mas quase não recebe orçamento, metas claras ou participação das populações mais vulneráveis
Por Laercio Damasceno - 11/06/2026


Imagem: Reprodução


A relação entre mudanças climáticas e saúde humana já não é uma hipótese científica. Ondas de calor mais intensas, expansão de doenças infecciosas, insegurança alimentar, deslocamentos populacionais e impactos psicológicos crescentes tornaram a saúde uma das áreas mais vulneráveis à crise climática. No entanto, um amplo estudo internacional publicado nesta quarta-feira (10), na revista científica The Lancet Planetary Health, revela que a maioria dos governos ainda está longe de integrar efetivamente a saúde em suas estratégias de adaptação climática.

A pesquisa analisou políticas nacionais de adaptação climática de 198 países e da União Europeia, tornando-se a maior avaliação global já realizada sobre o tema. O trabalho foi liderado por Catherine Clare Morneau, da London School of Economics and Political Science, e Dimitri Philippon-Dulac, da Sciences Po Paris e da Universidade Columbia, sob coordenação de Ilan Cerna-Turoff, da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos.

Os pesquisadores examinaram 522 documentos oficiais, incluindo Planos Nacionais de Adaptação, Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), Comunicações Nacionais à Convenção do Clima da ONU e Planos Nacionais de Adaptação para a Saúde. O objetivo era responder a uma questão fundamental: até que ponto os países estão preparando seus sistemas de saúde para enfrentar os impactos do aquecimento global?

Os resultados mostram um cenário de avanços importantes, mas também de lacunas profundas.

Contagem de políticas nacionais de adaptação climática por regiões dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
As regiões dos ODS com o menor número de referências a doenças e condições de saúde sub-representadas foram a África Subsaariana para saúde mental (21 [36%] de 522 políticas) e lesões (56 [39%]), a Europa e a América do Norte para saúde sexual e reprodutiva (29 [28%]), a Oceania para alergias (uma [2%]) e o Norte da África e a Ásia Ocidental para violência (cinco [9%]).

Dos 197 países que possuíam políticas climáticas nacionais identificadas — todos, exceto a Líbia —, 88% mencionavam a saúde em seus documentos oficiais. Além disso, 97% reconheciam que determinados grupos populacionais sofrem impactos desproporcionais das mudanças climáticas, incluindo crianças, idosos, mulheres, povos indígenas e populações de baixa renda.

Mas a análise revelou uma contradição preocupante: embora a saúde seja amplamente citada, poucos governos apresentam mecanismos concretos para proteger suas populações.

A deficiência mais grave está no financiamento. Apenas seis países em todo o mundo — equivalentes a apenas 3% da amostra — detalhavam recursos financeiros específicos para ações de saúde relacionadas à adaptação climática.

Segundo os autores, essa ausência de orçamento compromete a implementação de praticamente qualquer estratégia.

“O financiamento adequado é central para garantir a implementação das ações propostas”, afirmam os pesquisadores no estudo. Sem recursos definidos, os planos permanecem essencialmente como declarações de intenção.

Outra descoberta importante envolve a representatividade social. Embora quase todos os países reconheçam grupos vulneráveis, apenas 24 nações (12%) informaram envolver essas populações nos processos de tomada de decisão sobre clima e saúde.

Para os autores, essa ausência de participação enfraquece a qualidade das políticas públicas.

“O envolvimento das populações desproporcionalmente afetadas fortalece a relevância e a equidade das políticas”, destacam os pesquisadores.


A pesquisa também identificou quais problemas de saúde recebem maior atenção e quais permanecem praticamente invisíveis nas estratégias climáticas.

As doenças transmitidas por vetores, como dengue e malária, aparecem em 74% das políticas analisadas. Questões relacionadas à água, saneamento e higiene são citadas em 75% dos documentos, enquanto problemas nutricionais aparecem em 63%.

Por outro lado, diversos temas críticos permanecem subestimados.

A saúde mental aparece em apenas 42% das políticas, enquanto saúde sexual e reprodutiva surge em 39%. Lesões físicas decorrentes de eventos extremos são citadas por apenas 34% dos países, alergias por 20% e violência relacionada aos impactos climáticos por apenas 17%.

Esses números chamaram atenção dos pesquisadores por refletirem um desalinhamento crescente entre a literatura científica e as políticas públicas.

Nas últimas décadas, estudos vêm demonstrando que eventos climáticos extremos aumentam significativamente transtornos de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, violência doméstica, insegurança alimentar e deslocamentos forçados. Mesmo assim, esses problemas continuam pouco representados nos planos nacionais.

Outro aspecto preocupante é a ausência de mecanismos robustos de monitoramento.

Embora 66% dos países mencionem sistemas de monitoramento e avaliação, a qualidade desses mecanismos foi considerada baixa. A pontuação média global para integração da saúde nas políticas climáticas foi de apenas 9,4 pontos em uma escala de 15, sendo justamente monitoramento e financiamento os componentes mais frágeis.

A pesquisa também constatou que apenas metade dos países possui planejamento de saúde descentralizado em níveis subnacionais, uma limitação relevante diante da enorme diversidade regional dos impactos climáticos. Menos de um quarto dos governos desenvolveu estratégias específicas para áreas urbanas ou rurais.

Apesar das fragilidades, os autores identificam sinais positivos.

A frequência de referências à saúde nas políticas climáticas vem aumentando continuamente desde 2004. Além disso, 81% dos países já fazem conexões entre seus planos climáticos e outras políticas nacionais de saúde, indicando maior integração institucional do que em décadas anteriores.

Para Ilan Cerna-Turoff e colegas, o desafio agora é transformar reconhecimento em ação efetiva.

Os pesquisadores defendem que futuros planos climáticos incluam doenças específicas, metas mensuráveis, indicadores de desempenho, estruturas de coordenação entre ministérios e fontes permanentes de financiamento. Também recomendam maior participação das comunidades diretamente afetadas e expansão dos chamados Planos Nacionais de Adaptação para a Saúde.

A publicação chega em um momento particularmente relevante. Durante a COP30, realizada em Belém, organismos internacionais e fundações anunciaram novos compromissos financeiros para integrar saúde e clima. Ainda assim, os autores alertam que os recursos atualmente disponíveis permanecem muito abaixo do necessário para enfrentar os riscos crescentes associados ao aquecimento global.

A principal mensagem do estudo é clara: o mundo já reconheceu que a crise climática é também uma crise de saúde pública. O desafio agora é garantir que essa compreensão saia dos documentos oficiais e se traduza em hospitais resilientes, sistemas de vigilância eficientes, financiamento adequado e proteção efetiva para as populações mais vulneráveis. Sem isso, concluem os pesquisadores, os objetivos globais de adaptação climática dificilmente serão alcançados.


Referência
Integração da saúde nas políticas nacionais de adaptação climática em 198 países: uma análise global de políticas. A revista The Lancet sobre saúde planetáriaPublicado em: 10 de junho de 2026. Catarina Clare Morneau, Dimitri Philippon-Dulac, Xiyun HuAnusha Jain, Mingyue LiuMali Grubere outros. DOI: 10.1016/j.lanplh.2026.101466Link externo

 

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