Saúde

O ar mais limpo já não garante o mesmo alívio: estudo global revela que o impacto mortal da poluição por partículas ficou mais forte nas últimas quatro décadas
Análise de 23,2 milhões de mortes em 143 cidades de 26 países mostra que cada aumento de PM10 hoje está associado a um risco de morte maior do que no passado. Envelhecimento populacional e mudanças na composição da poluição estão entre as hipóteses..
Por Redação MaisConhecer - 11/06/2026


Imagem: Reprodução


Por décadas, a luta contra a poluição atmosférica foi guiada por uma premissa aparentemente simples: reduzir a concentração de partículas no ar significa reduzir proporcionalmente os danos à saúde. Um novo estudo internacional sugere que essa relação pode ser mais complexa do que se imaginava. Mesmo em um mundo onde os níveis médios de poluição diminuíram em muitas regiões, os efeitos de uma mesma quantidade de partículas inaladas parecem ter se tornado mais perigosos.

Publicado nesta quarta-feira (10), na revista científica The Lancet Planetary Health, o estudo analisou dados de 143 cidades distribuídas em 26 países ao longo de quatro décadas e concluiu que a associação entre a exposição ao material particulado PM10 e a mortalidade por todas as causas aumentou significativamente entre 1979 e 2019.

A pesquisa foi liderada por Yongsoo Choi, da Yale University, em colaboração com dezenas de especialistas da rede internacional Multi-Country Multi-City Collaborative Research Network (MCC), envolvendo instituições da América do Norte, Europa, Ásia, África e América Latina. Entre os autores seniores está a epidemiologista ambiental Michelle L. Bell, referência mundial em saúde ambiental.

“O efeito de um determinado aumento na concentração de PM10 sobre a mortalidade tornou-se mais pronunciado ao longo do tempo”, afirmam os autores.


Tendência temporal específica de cada país da associação entre PM10 e mortalidade por todas as causas em 143 cidades de 26 países, de 1979 a 2019.
Examinamos se fatores socioeconômicos e ambientais específicos de cada cidade, variáveis ??ao longo do tempo, poderiam explicar a variação nas tendências temporais dos efeitos do PM10 . Duas variáveis ??foram significativamente associadas à mudança na mortalidade relacionada ao PM10 : a porcentagem da população com 65 anos ou mais (teste da razão de verossimilhança p=0,013) e a concentração média anual de PM10 ( p=0,034)...

Um banco de dados sem precedentes

Os pesquisadores examinaram 23,2 milhões de mortes registradas entre 1979 e 2019. Os dados incluíram medições diárias de PM10, temperatura e mortalidade em cidades espalhadas por países como Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Alemanha, França, Canadá, Coreia do Sul, Brasil, México, Portugal e África do Sul.

O PM10 corresponde a partículas inaláveis com diâmetro inferior a 10 micrômetros — aproximadamente um sétimo da espessura de um fio de cabelo humano. Essas partículas são produzidas por veículos, atividades industriais, queimadas, construção civil e poeira em suspensão.

Os resultados mostram uma mudança marcante. Em 1979, um aumento de 10 microgramas por metro cúbico (?g/m3) na concentração diária de PM10 estava associado a um aumento de 0,23% na mortalidade por todas as causas. Em 2019, o mesmo aumento de poluição passou a estar associado a uma elevação de 0,51% no risco de morte — mais que o dobro do observado quatro décadas antes.

Segundo os autores, a tendência equivale a um crescimento anual de aproximadamente 0,0069% no risco associado a cada incremento de PM10.

O paradoxo da poluição

O achado é particularmente intrigante porque, no mesmo período, a concentração média de PM10 caiu em muitas regiões do mundo.

Entre 2000 e 2015, por exemplo, a concentração média observada nas cidades analisadas diminuiu de 30,4 para 26,1 ug/m3. O número médio diário de mortes também caiu.

Em teoria, isso deveria significar menos impacto da poluição. Mas a pesquisa sugere que cada unidade remanescente de poluição pode estar causando um dano proporcionalmente maior.

Uma das explicações apontadas pelos cientistas está no envelhecimento populacional. O estudo identificou uma associação estatisticamente significativa entre o aumento da proporção de pessoas com 65 anos ou mais e o fortalecimento dos efeitos do PM10 sobre a mortalidade.

“À medida que as sociedades envelhecem, uma parcela maior da população torna-se vulnerável à poluição atmosférica”, destacam os pesquisadores.

Idosos apresentam maior prevalência de doenças cardiovasculares, respiratórias e metabólicas, fatores que aumentam a sensibilidade aos efeitos tóxicos das partículas suspensas no ar.

A composição da poluição também mudou

Outra hipótese importante envolve transformações na composição química das partículas.

Embora a massa total de PM10 tenha diminuído em diversos países, os autores observam que nem todos os componentes da poluição diminuíram na mesma proporção. Mudanças nas fontes emissoras — como redução de certas atividades industriais e crescimento de outras fontes urbanas — podem ter alterado a toxicidade das partículas presentes na atmosfera.

A análise revelou ainda uma relação inversa entre as concentrações médias anuais de PM10 e o risco associado à mortalidade. Em outras palavras, cidades que experimentaram reduções mais expressivas na poluição apresentaram, paradoxalmente, uma associação mais forte entre PM10 e mortes.

Os autores sugerem que isso pode refletir uma curva dose-resposta não linear, na qual níveis mais baixos de poluição continuam produzindo impactos importantes na saúde, contrariando a ideia de que existe um limiar seguro de exposição.

Resultados variaram entre países

Apesar da tendência global de aumento, os resultados não foram uniformes.

O estudo encontrou crescimento significativo da associação entre PM10 e mortalidade em países como Japão, Islândia e Portugal. Já França e África do Sul apresentaram tendência oposta, com redução do impacto ao longo do tempo. Em países como Alemanha, Canadá, Israel e Reino Unido, não foram observadas mudanças estatisticamente claras.

Essa heterogeneidade sugere que fatores locais — incluindo políticas ambientais, infraestrutura de saúde, urbanização e composição química dos poluentes — desempenham papel relevante.

Implicações para políticas públicas

Talvez a principal mensagem do estudo seja metodológica e política.

Grande parte das estimativas atuais sobre a carga global de doenças atribuídas à poluição atmosférica utiliza coeficientes de risco derivados de pesquisas realizadas anos ou até décadas atrás. Se esses riscos mudam com o tempo, como sugere a nova análise, os cálculos podem estar subestimando o impacto atual da poluição sobre a saúde humana.

“Aplicar estimativas históricas de risco pode levar à subestimação da carga contemporânea de doenças atribuível ao PM10”, alertam os autores.

Para Michelle Bell e colegas, o trabalho reforça a necessidade de atualizar continuamente as evidências científicas que fundamentam regulamentações ambientais e avaliações de risco. Num cenário marcado pelo envelhecimento populacional, mudanças climáticas e rápida urbanização, os efeitos futuros da poluição podem diferir substancialmente daqueles observados no passado.

A conclusão é clara: melhorar a qualidade do ar continua sendo essencial, mas os benefícios para a saúde não podem mais ser estimados apenas pela redução dos níveis de poluição. O próprio impacto biológico das partículas está mudando — e a ciência terá de acompanhar essa transformação para que políticas públicas permaneçam eficazes em proteger vidas.


Referência
Alterações temporais no risco de mortalidade associado a PM10 em 143 cidades de 26 países: um estudo de séries temporais multicêntrico e multicêntrico. A revista The Lancet sobre saúde planetária. Publicado em: 10 de junho de 2026. Yongsoo Choi, Garam ByunHonghyok KimRory Stewart, Canção Yimeng, Seulkee Heoe outros. DOI: 10.1016/j.lanplh.2026.101465Link externo

 

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