Saúde

Hormônios sexuais e câncer: o que os níveis de testosterona revelam sobre a saúde masculina
Meta-análise internacional com mais de 26 mil homens mostra que baixos níveis de testosterona e di-hidrotestosterona estão associados a maior risco de morte por câncer, enquanto hormônios tradicionalmente ligados ao eixo reprodutivo podem servir...
Por Laercio Damasceno - 20/06/2026


Imagem: Reprodução


A testosterona, durante décadas, ocupou um lugar controverso na oncologia masculina. Frequentemente associada ao crescimento do câncer de próstata, ela foi vista mais como um potencial vilão do que como um indicador de proteção à saúde. Agora, uma das maiores análises já realizadas sobre hormônios sexuais masculinos e câncer sugere uma narrativa muito mais complexa — e possivelmente surpreendente.

Publicado nesta sexta-feira (20), na revista científica The Lancet Healthy Longevity, o estudo liderado por Ross J. Marriott, da University of Western Australia, reuniu dados individuais de 26.045 homens provenientes de 11 grandes coortes populacionais internacionais. Os resultados mostram que homens com níveis mais baixos de testosterona apresentam maior risco de morrer por câncer e maior probabilidade de desenvolver tumores ao longo do tempo.

A pesquisa integra o projeto internacional Androgens in Men Study (AIMS) e contou com a colaboração de cientistas de instituições como a University of Western Australia, KU Leuven, Harvard Medical School, Baylor College of Medicine, University of Washington, University of Manchester e diversas outras universidades da Europa, Austrália e Estados Unidos.

Um estudo sem precedentes

Os pesquisadores analisaram dados de 24.510 homens, acumulando mais de 276 mil anos-pessoa de acompanhamento, durante os quais ocorreram 2.847 mortes por câncer. Além disso, foram examinados mais de 2.400 novos casos de câncer e 918 diagnósticos de câncer de próstata.

Um dos diferenciais do trabalho foi o uso exclusivo de medições hormonais feitas por espectrometria de massa, considerada o padrão-ouro para quantificação hormonal. Estudos anteriores haviam utilizado principalmente imunoensaios, menos precisos, o que ajudava a explicar resultados contraditórios observados na literatura científica.

“Nossos resultados esclarecem inconsistências observadas em estudos anteriores e identificam faixas hormonais específicas abaixo das quais os riscos aumentam”, destacam os autores.

O limiar crítico da testosterona

A descoberta mais marcante foi a associação entre testosterona baixa e mortalidade por câncer.

Os pesquisadores identificaram que o risco começa a aumentar quando os níveis de testosterona total ficam abaixo de 8,6 nmol/L (aproximadamente 245 ng/dL). Homens pertencentes ao quintil mais baixo de testosterona apresentaram um risco 18% maior de morrer por câncer em comparação aos indivíduos do quintil mais alto (HR 1,18; IC95% 1,04–1,34).

Além disso, níveis extremamente baixos — inferiores a 7,3 nmol/L — também foram associados a um aumento no risco de desenvolver qualquer tipo de câncer durante o acompanhamento.

Segundo os autores, isso não significa necessariamente que a testosterona proteja diretamente contra o câncer. Uma hipótese mais plausível é que baixos níveis hormonais sejam um marcador biológico de fragilidade sistêmica e pior estado geral de saúde.

“Concentrações reduzidas de testosterona podem refletir doenças subjacentes ou menor capacidade fisiológica de resistência ao envelhecimento”, argumenta a equipe.

O papel da di-hidrotestosterona

Outro achado relevante envolveu a di-hidrotestosterona (DHT), metabólito ativo da testosterona.

Homens com os menores níveis de DHT apresentaram risco 21% maior de morte por câncer em comparação com aqueles nos níveis mais elevados (HR 1,21; IC95% 1,06–1,38).

O resultado reforça a ideia de que o eixo hormonal masculino pode estar intimamente ligado à capacidade do organismo de responder a doenças graves.

Uma surpresa no câncer de próstata

Talvez o resultado mais inesperado do estudo seja justamente aquele relacionado ao câncer mais associado aos hormônios masculinos.

Ao contrário do que frequentemente se imagina, os pesquisadores não encontraram associação significativa entre testosterona, DHT ou estradiol e o risco de desenvolver câncer de próstata.

Em vez disso, os fatores mais fortemente associados ao aumento do risco foram níveis baixos de globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) e de hormônio luteinizante (LH).

Homens com os menores níveis de SHBG apresentaram risco 28% maior de câncer de próstata (HR 1,28; IC95% 1,07–1,54). Já aqueles com os menores níveis de LH tiveram risco 45% maior (HR 1,45; IC95% 1,13–1,86).

“Não observamos associação entre testosterona e câncer de próstata. Em vez disso, níveis reduzidos de SHBG e LH mostraram-se associados ao aumento do risco”, escrevem os autores.

Biomarcadores do futuro?

Os cientistas observaram ainda que concentrações intermediárias de SHBG e LH estiveram associadas ao menor risco de morte por câncer, sugerindo que não apenas níveis baixos, mas também valores excessivamente altos desses hormônios podem indicar desequilíbrios biológicos relevantes.

Para o endocrinologista Bu B. Yeap, da University of Western Australia e autor sênior do estudo, os resultados apontam para uma nova aplicação clínica dos hormônios sexuais masculinos.

Em vez de serem vistos apenas como reguladores da função reprodutiva, testosterona, SHBG, LH e DHT podem funcionar como biomarcadores precoces de risco oncológico, ajudando médicos a identificar indivíduos mais vulneráveis antes do surgimento de sintomas clínicos evidentes.

Uma nova visão sobre envelhecimento masculino

Os autores ressaltam que o estudo não demonstra causalidade. Ou seja, não há evidências de que aumentar artificialmente os níveis de testosterona reduza o risco de câncer.

Ainda assim, os resultados oferecem uma das evidências epidemiológicas mais robustas já produzidas sobre a relação entre hormônios sexuais e câncer em homens. Como concluem os pesquisadores, os dados sustentam a ideia de que a testosterona baixa é um importante marcador biológico de vulnerabilidade à doença, enquanto alterações em SHBG e LH podem fornecer pistas valiosas sobre o risco futuro de câncer, especialmente de próstata.

Em um cenário de envelhecimento populacional acelerado, compreender como o sistema hormonal se relaciona com o câncer poderá abrir caminho para novas estratégias de rastreamento, prevenção e monitoramento da saúde masculina nas próximas décadas.


Referência
Associações entre testosterona, globulina de ligação a hormônios sexuais e hormônios relacionados com os riscos de morte por câncer, incidência de câncer e incidência de câncer de próstata em homens: metanálises de dados individuais de participantes. The Lancet Longevidade SaudávelPublicado em: 19 de junho de 2026. Ross J Marriott, Kevin Murray, Leen Antonio, Robert J Adams, Christie M Ballantyne, Douglas C Bauere outros. DOI: 10.1016/j.lanhl.2026.100857Link externo

 

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