Saúde

Exercício físico reduz o efeito sanfona após o emagrecimento, mostra meta-análise internacional
Revisão de 11 ensaios clínicos revela que a prática regular de exercícios pode evitar quase 3 quilos de reganho de peso após dietas, medicamentos ou cirurgia bariátrica; autores defendem que atividade física deve ser tratada como parte essencial...
Por Redação MaisConhecer - 22/06/2026


Imagem: Reprodução


A batalha contra a obesidade não termina quando os quilos extras desaparecem. Para milhões de pessoas, o verdadeiro desafio começa depois: evitar que o peso perdido retorne. Agora, uma ampla revisão científica publicada nesta segunda-feira (22), na revista Scientific Reports, oferece uma das evidências mais robustas até o momento de que a prática regular de exercícios físicos pode ser uma das armas mais eficazes contra o chamado “efeito sanfona”.

O estudo, liderado por Jiachen Wang, ao lado de Yun Chen, Kai Xu e Jiansong Dai, do Nanjing Sport Institute, analisou dados de 11 ensaios clínicos randomizados envolvendo 568 participantes que haviam emagrecido por meio de dietas restritivas, medicamentos ou cirurgia bariátrica.

A conclusão foi clara: pessoas que incorporaram programas estruturados de exercício durante a fase de manutenção recuperaram, em média, 2,81 quilos a menos do que aquelas que não praticaram atividade física regularmente. O resultado foi estatisticamente significativo e apresentou elevada consistência entre os estudos analisados.

“Os exercícios proporcionam um benefício pequeno, mas consistente para a manutenção do peso após o emagrecimento”, escreveram os autores na conclusão do trabalho.

O desafio biológico do reganho de peso

A pesquisa parte de uma constatação amplamente conhecida pela medicina: perder peso é difícil, mas mantê-lo é ainda mais complicado.

Segundo os autores, indivíduos que interrompem tratamentos com agonistas do receptor GLP-1 — classe de medicamentos que inclui fármacos amplamente utilizados contra obesidade — podem recuperar mais de 60% do peso perdido em apenas um ano. Da mesma forma, entre um terço e dois terços do peso eliminado por dietas costuma retornar no mesmo período. Entre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, de 30% a 50% apresentam reganho significativo em até cinco anos.

A explicação está na própria biologia humana.

Quando uma pessoa emagrece, o organismo responde com mecanismos compensatórios. Hormônios relacionados à fome sofrem alterações, o apetite aumenta e o gasto energético em repouso diminui. Em termos evolutivos, o corpo interpreta a perda de peso como uma ameaça à sobrevivência e tenta restaurar as reservas energéticas.

Nesse contexto, o exercício surge como uma intervenção estratégica porque atua justamente contra esses mecanismos. A atividade física aumenta o gasto energético, preserva a massa muscular, melhora a sensibilidade à insulina e ajuda a manter uma taxa metabólica mais elevada após o emagrecimento.

Uma análise de quase três décadas de pesquisas

Para chegar às conclusões, os pesquisadores realizaram uma busca sistemática em cinco grandes bases científicas internacionais, incluindo PubMed, Embase e Web of Science.

Dos 1.529 estudos inicialmente identificados, apenas 11 preencheram todos os critérios metodológicos exigidos. As pesquisas incluídas foram publicadas entre 1996 e 2023 e envolveram adultos com sobrepeso ou obesidade que haviam conseguido perder peso antes de ingressar na fase de manutenção.

Os participantes foram submetidos a diferentes modalidades de atividade física, incluindo caminhadas, exercícios aeróbicos, treinamento de resistência muscular e programas combinados de condicionamento físico. As intervenções variaram de 12 semanas a pouco mais de um ano.

Ao combinar os resultados, os pesquisadores observaram que o exercício reduziu significativamente o reganho de peso, com diferença média de 2,81 kg entre os grupos. Além disso, a heterogeneidade estatística foi praticamente inexistente (I2 = 0%), indicando forte concordância entre os estudos analisados.

Gordura corporal ainda é uma incógnita

Embora os resultados para o peso corporal tenham sido positivos, a situação foi menos clara quando os cientistas avaliaram especificamente a gordura corporal.

A meta-análise encontrou tendência de redução de 3,39 kg de massa gorda nos participantes que se exercitavam, mas a diferença não alcançou significância estatística na análise principal. Além disso, houve elevada variabilidade entre os estudos, dificultando conclusões definitivas.

Segundo os autores, isso pode refletir diferenças nos tipos de exercício, intensidade dos programas, características dos participantes e métodos utilizados para medir a composição corporal.


“Os benefícios do treinamento de resistência podem não ser totalmente capturados pelo peso corporal”, observam os pesquisadores, destacando que ganhos de massa muscular podem mascarar reduções de gordura quando se observa apenas o número na balança.

Aeróbico e musculação: papéis complementares

A revisão também sugere que diferentes modalidades de exercício podem desempenhar funções distintas na manutenção do emagrecimento.

Os estudos indicaram que exercícios aeróbicos — como caminhada, corrida leve e ciclismo — parecem mais eficazes para limitar o reganho de peso corporal. Já a musculação mostrou benefícios particularmente relevantes para preservar a composição corporal e reduzir medidas de circunferência abdominal.

Para os autores, a mensagem prática é que o sucesso na manutenção do peso não deve ser avaliado apenas pela balança.

“O exercício deve ser considerado um componente importante da manutenção do peso após o emagrecimento”, afirmam. “Exercícios aeróbicos podem ser particularmente úteis para limitar o reganho, enquanto o treinamento resistido oferece benefícios adicionais para preservar ou melhorar a composição corporal.”


Os resultados chegam em um momento em que a obesidade continua sendo uma das maiores ameaças globais à saúde. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de um bilhão de pessoas convivam atualmente com excesso de peso ou obesidade.

Nesse cenário, a descoberta reforça uma mudança de paradigma cada vez mais defendida por especialistas: o tratamento da obesidade não deve ser encarado como um evento de curto prazo, mas como um processo contínuo de manejo metabólico.

A mensagem central da pesquisa é que emagrecer representa apenas a primeira etapa. A manutenção exige estratégias permanentes, e o exercício físico desponta como uma das intervenções mais acessíveis, seguras e eficazes disponíveis atualmente.

Embora os cientistas ressaltem a necessidade de estudos mais longos e padronizados, a evidência acumulada aponta para uma conclusão prática: quem deseja evitar o retorno dos quilos perdidos deve continuar se movimentando mesmo depois de atingir a meta na balança. Afinal, o verdadeiro sucesso do emagrecimento pode não estar em perder peso, mas em impedir que ele volte.


Referência
Wang, J., Chen, Y., Xu, K. et al. Os efeitos de intervenções com exercícios físicos no reganho de peso após a perda de peso: uma revisão sistemática e meta-análise. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-57804-8

 

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