Menopausa sob o microscópio global: maior estudo internacional revela impactos profundos na saúde física e mental de mulheres em 13 países
Pesquisa com mais de 5.200 participantes mostra que ansiedade, depressão, dores físicas e queda da qualidade de vida variam amplamente entre países, mas têm um ponto em comum: a menopausa continua sendo uma das condições mais negligenciadas...

Imagem: Reprodução
A menopausa deixou de ser apenas uma transição biológica para se consolidar como um dos grandes desafios globais de saúde do século XXI. Um amplo estudo internacional publicado nesta terça-feira (23), na revista científica eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, analisou dados de 5.228 mulheres em 13 países e concluiu que os impactos físicos e psicológicos da perimenopausa, menopausa e pós-menopausa são muito mais profundos, complexos e desiguais do que se imaginava.
A investigação integra o projeto MARIE (Menopause and Related Issues and Experiences), financiado pelo NIHR Research Capability Fund, e reuniu pesquisadores de instituições da Europa, África, Ásia e América Latina, incluindo a University of Campinas, no Brasil, a University of Birmingham, a University of Ruhuna e a Nnamdi Azikiwe University. O trabalho foi liderado por Gayathri Delanerolle e pelo pesquisador Peter Phiri, da Hampshire and Isle of Wight Healthcare NHS Foundation Trust, no Reino Unido.
Os resultados revelam uma realidade preocupante: sintomas como ansiedade, depressão, ondas de calor, insônia, dores musculares, fadiga e prejuízos à qualidade de vida afetam milhões de mulheres em todo o mundo, mas permanecem subestimados por sistemas de saúde e formuladores de políticas públicas.
Segundo os autores, a expectativa de vida crescente torna o problema ainda mais urgente. Em 2020, cerca de 985 milhões de mulheres no mundo tinham 50 anos ou mais. Até 2050, esse número deverá alcançar 1,65 bilhão. Isso significa que uma parcela cada vez maior da população passará décadas da vida em estágios peri, pós ou menopausais.
Figura 2. Mapa de calor da pontuação dos sintomas da menopausa por país e estágio. Esta figura exibe a distribuição das pontuações médias para 12 escalas de sintomas em 13 países (linhas) e três estágios da menopausa (colunas: Perimenopausa, Menopausa, Pós-menopausa). Os valores das células indicam a pontuação média da escala para cada subgrupo...
Um retrato global sem precedentes
O estudo coletou informações entre janeiro de 2024 e setembro de 2025 em Reino Unido, Brasil, Ruanda, Nigéria, Gana, Tanzânia, Sri Lanka, Índia, Paquistão, Nepal, Malásia, Singapura e Omã. A idade mediana das participantes foi de 55 anos. Do total, 18,6% estavam na perimenopausa, 32,2% na menopausa e 49,2% na pós-menopausa.
Os pesquisadores observaram diferenças marcantes entre países. Reino Unido e Ruanda apresentaram os maiores níveis de ansiedade, depressão, sintomas somáticos e carga geral de sintomas menopausais. Em contraste, Nepal, Sri Lanka, Malásia e Singapura registraram os menores índices de sofrimento físico e psicológico.
Para Peter Phiri, autor correspondente do estudo, os resultados demonstram que a menopausa não pode ser entendida apenas como um fenômeno hormonal.
“A menopausa é uma transição biopsicossocial complexa moldada pela geografia, pelos determinantes sociais e pelas múltiplas condições de saúde coexistentes”, afirmam os autores.
Educação protege, doenças agravam
Uma das descobertas mais consistentes foi o papel protetor da educação. Mulheres com formação universitária ou pós-graduação apresentaram menores níveis de ansiedade e depressão em praticamente todos os modelos estatísticos analisados.
Por outro lado, fatores de maior complexidade clínica ampliaram significativamente o sofrimento. Diagnóstico de endometriose, insuficiência ovariana prematura, uso de análogos de GnRH, doenças crônicas e deficiência física foram associados a piores indicadores de saúde mental e física.
Entre as participantes, 6,7% relataram diagnóstico médico de endometriose, 12,2% haviam sido submetidas à histerectomia e 21,7% utilizavam ou haviam utilizado terapia hormonal.

Os dados mostram ainda que mulheres com menos tempo de experiência profissional antes da menopausa apresentaram índices mais elevados de ansiedade, depressão e incapacidade funcional.
O elo invisível entre mente e corpo
Talvez a descoberta mais inovadora do trabalho tenha vindo da análise em rede dos sintomas. Utilizando modelos matemáticos avançados, os pesquisadores identificaram que o esgotamento emocional — ou burnout — surgiu como o principal nó de conexão entre os sintomas físicos e psicológicos da menopausa.
Isso sugere que intervenções focadas exclusivamente em sintomas isolados, como ondas de calor ou alterações hormonais, podem falhar em abordar os mecanismos centrais que conectam sofrimento emocional, dor física, fadiga e perda de qualidade de vida.
“O modelo tradicional, centrado apenas nos sintomas, é insuficiente para compreender a experiência da menopausa”, destacam os autores.
A relevância do tema é ampliada por uma realidade demográfica pouco discutida. Segundo a literatura revisada pelos autores, aproximadamente 76% das mulheres pós-menopáusicas viverão em países em desenvolvimento até o final desta década. Paradoxalmente, essas regiões concentram os sistemas de saúde menos preparados para oferecer assistência especializada.
Além disso, pesquisas anteriores já indicam que cerca de uma em cada três mulheres em perimenopausa ou pós-menopausa apresenta sintomas de depressão clinicamente relevantes.
Uma nova agenda global para a menopausa
Os autores ressaltam que o estudo não busca estabelecer relações causais, mas fornecer um panorama robusto das diferenças e semelhanças entre populações culturalmente diversas. Ainda assim, as evidências apontam para a necessidade urgente de reformular políticas públicas voltadas à saúde da mulher madura.
A principal conclusão do projeto MARIE é clara: a menopausa precisa deixar de ser tratada como uma condição exclusivamente ginecológica e passar a ser reconhecida como uma questão multidimensional de saúde pública, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos, sociais e econômicos.
Ao reunir dados de quatro continentes e mais de cinco mil mulheres, o estudo oferece uma das fotografias mais abrangentes já produzidas sobre a experiência da menopausa no mundo contemporâneo. E lança um alerta para governos, profissionais de saúde e pesquisadores: à medida que a população envelhece, ignorar a menopausa significará ignorar a saúde e o bem-estar de centenas de milhões de mulheres nas próximas décadas.
Referência
Impacto na saúde física e mental da perimenopausa, menopausa e pós-menopausa em uma população global diversificada (Projeto MARIE - Capítulo Global WP 2a): dados quantitativos transversais de um estudo com métodos mistos. eClinicalMedicineVol. 97 104032 Publicado: 23 de junho de 2026. Gayathri Delanerolle, Vindya Pathiraja, George Uchenna Eleje, Teck Hock Toh, Nirmala Rathnayake, Fred Tweneboah-Koduahe outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.104032Link externo