Exercício intenso reduz a fome e pode ajudar no controle do peso, revela estudo internacional
Pesquisa conduzida por cientistas da Dinamarca e do Reino Unido mostra que sessões de exercícios intervalados de alta intensidade diminuem a ingestão de alimentos sem provocar compensação nas horas seguintes, inclusive em pessoas com diabetes tipo 2.

Imagem: Reprodução
Uma única sessão de exercício físico intenso pode fazer mais do que queimar calorias: ela também reduz a fome e leva as pessoas a comerem menos nas refeições seguintes. A conclusão é de um amplo estudo internacional publicado na revista científica eBioMedicine do grupo The Lancet, nesta quarta-feira (1º), que investigou os efeitos do exercício intervalado de alta intensidade (HIIE, na sigla em inglês) sobre o apetite e o metabolismo em adultos com sobrepeso e obesidade, incluindo indivíduos com diabetes tipo 2.
O estudo, intitulado Effects of exercise and exercise timing on energy intake and appetite control, foi conduzido por pesquisadores do Centro de Diabetes Steno de Copenhague, da Universidade de Copenhague e da Universidade de Leeds, no Reino Unido. O principal autor correspondente é o pesquisador Jonas Salling, em colaboração com cientistas como Natja Poder Launbo, Graham Finlayson e Kristine Færch.
A pesquisa acompanhou 58 adultos com sobrepeso ou obesidade, dos quais 29 tinham diabetes tipo 2. Os participantes foram submetidos a quatro condições experimentais diferentes: exercício pela manhã, exercício no final da tarde, repouso pela manhã e repouso no final da tarde. Em todas as sessões de exercício, os voluntários realizaram 45 minutos de ciclismo intervalado de alta intensidade.
Os resultados surpreenderam os pesquisadores. Após o exercício, os participantes consumiram, em média, 361 quilojoules a menos – aproximadamente 10% menos energia – em comparação com os períodos de repouso. Mais importante ainda, não houve compensação alimentar nas 24 horas seguintes, ou seja, os participantes não aumentaram a ingestão de alimentos para compensar as calorias gastas durante a atividade física.

Desenho do ensaio e desenho da visita de teste. O ensaio consistiu em uma visita de triagem seguida de uma avaliação basal. Os participantes foram então randomizados para quatro condições experimentais: exercício matinal, repouso matinal, exercício no final da tarde e repouso no final da tarde, com a ordem das condições randomizada para cada participante. O desenho da visita de teste ilustra a sequência de procedimentos durante cada dia experimental, incluindo coleta de sangue e avaliações subjetivas do apetite. Abreviaturas: VAS, escala visual analógica.
Segundo os autores, esse efeito reforça a ideia do chamado "exercício-induzido pela anorexia", fenômeno em que atividades intensas provocam uma supressão temporária da fome.
“O exercício de alta intensidade parece criar um déficit energético sem desencadear um aumento compensatório do apetite”, afirmam os pesquisadores na discussão do estudo.
Além das mudanças comportamentais, a equipe observou alterações importantes em hormônios relacionados à saciedade. Os níveis de grelina – conhecida como o “hormônio da fome” – diminuíram cerca de 22% após o exercício. Em contrapartida, duas moléculas associadas ao metabolismo energético, a FGF21 e a GDF15, aumentaram significativamente.
A concentração de FGF21, hormônio produzido principalmente pelo fígado e envolvido no metabolismo da glicose e das gorduras, subiu entre 18% e 31% após o exercício. Já a GDF15, proteína associada ao controle do apetite e à resposta ao estresse metabólico, apresentou aumento entre 12% e 17%.
Os pesquisadores sugerem que essas moléculas podem desempenhar papel central na redução da fome após atividades físicas intensas. O efeito foi particularmente evidente em participantes com diabetes tipo 2, que apresentaram níveis mais elevados de GDF15 em comparação aos indivíduos sem a doença.
Outro objetivo do estudo era determinar se o horário do exercício influenciava os resultados. A hipótese surgiu de pesquisas anteriores indicando que atividades físicas realizadas à tarde poderiam trazer vantagens metabólicas adicionais, especialmente para pessoas com diabetes.
Entretanto, os resultados mostraram que o momento do dia teve influência limitada. Em termos gerais, não houve diferenças significativas na quantidade de alimentos consumidos entre quem se exercitou pela manhã e quem treinou no final da tarde.
A única exceção foi observada em participantes sem diabetes tipo 2, que ingeriram menos alimentos após os exercícios matinais do que após os realizados à tarde.

“Os benefícios relacionados ao controle do apetite podem ser obtidos independentemente do horário em que o exercício é realizado”, concluem os autores.
Do ponto de vista clínico, os achados são relevantes. A obesidade e o diabetes tipo 2 estão entre os maiores desafios de saúde pública do mundo. Segundo estimativas internacionais, mais de um bilhão de pessoas vivem com obesidade, enquanto o número de adultos com diabetes ultrapassa 500 milhões.
Nesse contexto, intervenções simples e de baixo custo que ajudem a controlar a ingestão energética podem ter grande impacto na prevenção de doenças metabólicas.
Os pesquisadores destacam que o efeito observado foi agudo, ou seja, medido após uma única sessão de exercício. Ainda assim, a repetição frequente desse comportamento poderia contribuir para o controle do peso corporal ao longo do tempo.
“Mesmo reduções modestas na ingestão alimentar, quando repetidas regularmente, podem ter efeitos cumulativos importantes sobre o balanço energético e a manutenção do peso”, observam os autores.
O estudo também se destaca pela diversidade de participantes. Grande parte das pesquisas anteriores sobre apetite e exercício foi conduzida em indivíduos jovens e metabolicamente saudáveis. Ao incluir pessoas com sobrepeso, obesidade e diabetes tipo 2, os cientistas conseguiram demonstrar que os efeitos benéficos do exercício se estendem a populações frequentemente sub-representadas nos estudos científicos.
Embora novas pesquisas sejam necessárias para compreender os mecanismos biológicos envolvidos, os resultados fortalecem a recomendação de incorporar exercícios intervalados de alta intensidade em programas de prevenção e tratamento da obesidade.
A mensagem central do trabalho é clara: além de gastar energia, o exercício intenso pode ajudar o organismo a querer comer menos – um efeito duplo que pode se tornar um importante aliado no combate às doenças metabólicas do século XXI.
Referência
Efeitos do exercício e do momento do exercício sobre a ingestão de energia e o controle do apetite: um ensaio cruzado randomizado em pessoas com sobrepeso ou obesidade com e sem diabetes tipo 2. eBioMedicinaVol. 129 106353 Publicado: 1 de julho de 2026. Natja Poder LaunboLea Jalking, Marie Møller Jensen, Kristine Beaulieu, Graham Finlayson, Martin Bæk Loiroe outros.
DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106353Link externo