Medicamentos comuns podem reduzir o impacto da imunoterapia contra câncer de pulmão
Análise do estudo PACIFIC sugere que antibióticos e, sobretudo, inibidores da bomba de prótons estão associados à perda de eficácia do durvalumabe em pacientes com câncer de pulmão localmente avançado, reforçando o papel do microbioma na...

Imagem: Reprodução
Uma das descobertas mais intrigantes da oncologia moderna não surgiu de um novo medicamento, mas de um ecossistema microscópico que habita o intestino humano. Nos últimos anos, evidências acumuladas indicam que o microbioma intestinal influencia diretamente a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater tumores. Agora, uma nova análise do histórico estudo PACIFIC sugere que medicamentos amplamente utilizados na prática clínica — como antibióticos e inibidores da bomba de prótons (IBPs), empregados para controlar refluxo e gastrite — podem comprometer parte dos benefícios da imunoterapia em pacientes com câncer de pulmão.
Os resultados foram publicados nesta sexta-feira (3), no The Lancet Oncology, e representam a primeira demonstração, em um cenário randomizado de fase III, de que a exposição prévia a esses medicamentos está associada a piores desfechos em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células (NSCLC) estágio III irressecável tratados com durvalumabe após quimiorradioterapia.
Um desafio global de saúde pública
O câncer de pulmão permanece como a principal causa de morte por câncer no mundo. Entre os diferentes subtipos, o NSCLC responde por aproximadamente 85% dos casos. Embora avanços terapêuticos tenham transformado o tratamento da doença metastática, pacientes com doença localmente avançada ainda enfrentam risco elevado de recorrência mesmo após quimiorradioterapia definitiva.
Nesse contexto, o estudo PACIFIC mudou o padrão terapêutico ao demonstrar que o durvalumabe — um anticorpo que bloqueia a interação PD-L1/PD-1 — prolonga significativamente a sobrevida após quimiorradioterapia em pacientes sem progressão tumoral.
A nova análise procurou responder a uma pergunta que vem ganhando relevância na era da imunoterapia: medicamentos capazes de alterar o microbioma intestinal poderiam reduzir a eficácia do tratamento?

Perfil do ensaio
Entre a população total do estudo, 263 (40%) dos 660 pacientes foram expostos a inibidores da bomba de prótons no início do estudo e 69 (10%) dos 660 foram expostos a antibióticos; detalhes sobre os inibidores da bomba de prótons e os medicamentos antibiótico...
O que os pesquisadores encontraram
Os investigadores analisaram dados de 660 pacientes provenientes do estudo PACIFIC. Desses, 449 receberam durvalumabe e 211 placebo. Cerca de 40% dos participantes haviam utilizado IBPs nos 30 dias anteriores ao início do tratamento, enquanto 10% receberam antibióticos nesse mesmo período.
Os números chamam atenção.
Entre os pacientes tratados com durvalumabe, aqueles expostos a IBPs apresentaram sobrevida livre de progressão mediana de apenas 9,4 meses, comparada a 17,2 meses entre os não expostos. O risco de progressão ou morte foi 57% maior nesse grupo.
O impacto também apareceu na sobrevida global. Pacientes que utilizaram IBPs sobreviveram mediana de 33 meses, contra 57,9 meses entre aqueles sem exposição prévia. O risco de morte foi 66% superior.
A associação permaneceu robusta mesmo após ajustes estatísticos para idade, sexo, tabagismo, histologia tumoral, estágio clínico e uso de corticosteroides. Na análise multivariada, o uso de IBPs continuou associado a aumento de 69% no risco de morte.
Os antibióticos também mostraram influência negativa, embora menos consistente. Pacientes expostos apresentaram sobrevida livre de progressão de 9,2 meses, contra 15,6 meses entre os não expostos, correspondendo a aumento de 50% no risco de progressão. Entretanto, o efeito não alcançou significância estatística para sobrevida global.
Curiosamente, nenhum desses efeitos foi observado no grupo placebo. Essa diferença levou os autores a concluir que a associação parece depender especificamente da interação com a imunoterapia, e não apenas refletir pacientes clinicamente mais frágeis.
O microbioma no centro da explicação
A hipótese biológica por trás dos resultados envolve a microbiota intestinal.
Diversos estudos anteriores mostraram que determinadas comunidades bacterianas favorecem a ativação de células imunológicas capazes de potencializar a resposta aos inibidores de checkpoint imunológico. Antibióticos e IBPs, por sua vez, podem provocar disbiose — um desequilíbrio ecológico do microbioma — reduzindo a diversidade microbiana e eliminando espécies consideradas benéficas.
Para explorar essa possibilidade, os pesquisadores recorreram a uma coorte independente de pacientes tratados em condições reais no centro oncológico Gustave Roussy, na França. Utilizando uma ferramenta chamada Toposcore, capaz de classificar o microbioma em estados mais favoráveis ou mais desfavoráveis à imunoterapia, observaram que pacientes com perfil considerado saudável (SIG2+) apresentavam sobrevida livre de progressão significativamente superior à daqueles classificados como disbióticos (SIG1+).
Segundo os autores, a exposição a antibióticos esteve numericamente associada a maior frequência de perfis disbióticos, reforçando a plausibilidade biológica dos resultados clínicos.
Uma mensagem de cautela, não de proibição
Embora os resultados sejam expressivos, os pesquisadores enfatizam que não se trata de uma demonstração definitiva de causalidade.
Em sua discussão, a equipe liderada por Alessio Cortellini e Lisa Derosa destaca que pacientes recebem antibióticos e IBPs por razões clínicas legítimas. Um IBP pode ser prescrito para aliviar esofagite causada pela radioterapia. Antibióticos podem ser necessários para tratar infecções potencialmente graves. Dessa forma, parte do efeito observado pode refletir as condições clínicas que motivaram a prescrição, e não apenas o impacto direto dos medicamentos sobre o microbioma.
Ainda assim, os autores argumentam que o desenho randomizado do estudo e a ausência de sinal semelhante no grupo placebo fortalecem a interpretação de que existe uma interação específica com a imunoterapia. Em suas conclusões, eles sugerem que os resultados devem estimular uma avaliação mais criteriosa do uso desses medicamentos quando alternativas terapêuticas estiverem disponíveis.
O que muda para a prática clínica
A principal implicação do estudo não é interromper tratamentos necessários, mas incorporar o microbioma à equação terapêutica da oncologia.

Os autores observam que o efeito foi particularmente evidente para os IBPs, medicamentos frequentemente prescritos de forma prolongada e, em muitos casos, sem reavaliação periódica da necessidade clínica. Também chamam atenção para o uso expressivo de antibióticos após a quimiorradioterapia: 52 pacientes do grupo durvalumabe iniciaram antibioticoterapia no primeiro mês de tratamento, ilustrando como essas exposições são comuns na prática real.
Para especialistas da área, o estudo reforça uma mudança conceitual profunda. O sucesso da imunoterapia pode depender não apenas das características genéticas do tumor ou do sistema imunológico do paciente, mas também da composição de trilhões de microrganismos que vivem no intestino.
Se confirmados por estudos prospectivos, os achados poderão abrir caminho para estratégias de preservação ou modulação do microbioma como parte integrante do tratamento oncológico. Isso inclui programas mais rigorosos de stewardship de antibióticos, revisão crítica do uso prolongado de IBPs e, futuramente, intervenções direcionadas para restaurar comunidades microbianas favoráveis à resposta imunológica.
Mais do que uma observação farmacológica, o trabalho sugere que a eficácia da imunoterapia pode ser influenciada por fatores aparentemente periféricos ao câncer. Em uma era em que a medicina busca personalização cada vez maior, o microbioma emerge não apenas como biomarcador, mas como um possível determinante biológico da cura.
Referência
Impacto diferencial dos inibidores da bomba de prótons e dos antibióticos na eficácia da imunoterapia após quimiorradioterapia em câncer de pulmão de não pequenas células localmente avançado: uma análise post-hoc do estudo PACIFIC. The Lancet OncologyPublicado em: 3 de julho de 2026. Leonardo Brunetti, Valentina Santo, David J Pinato, Fabrizio Citarella, Sarah Orlando, Fabian Ackere outros. DOI: 10.1016/S1470-2045(26)00191-9Link externo