Saúde

Estudo europeu identifica marcadores genéticos que antecipam a evolução do diabetes tipo 1
Pesquisa internacional com 261 pacientes revela que alterações na atividade de dezenas de genes logo após o diagnóstico podem prever a velocidade da perda da produção de insulina e abrir caminho para tratamentos personalizados
Por Laercio Damasceno - 08/07/2026


Imagem: Reprodução


Uma ampla pesquisa internacional conduzida por cientistas de oito países europeus identificou novas pistas sobre por que alguns pacientes com diabetes tipo 1 evoluem rapidamente para a perda completa da produção de insulina, enquanto outros mantêm parte da função do pâncreas durante vários anos. O trabalho, publicado nesta segunda-feira (8), na revista científica eBioMedicine, do grupo The Lancet, valida pela primeira vez um conjunto de alterações genéticas capazes de prever a velocidade de progressão da doença logo no primeiro ano após o diagnóstico.

O estudo analisou o comportamento de mais de mil genes em amostras de sangue de 261 pacientes recém-diagnosticados, acompanhados pelo consórcio europeu INNODIA, uma das maiores redes internacionais dedicadas ao diabetes tipo 1. Os pesquisadores concluíram que mudanças específicas na expressão gênica estão diretamente relacionadas à rapidez com que as células beta do pâncreas deixam de produzir insulina, processo que caracteriza a doença.

A pesquisa foi liderada pelos cientistas Tomi Suomi, Inna Starskaia, Riitta Lahesmaa e Laura L. Elo, do Turku Bioscience Centre, da Universidade de Turku, na Finlândia, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Cambridge, King's College London, Universidade de Helsinque, Universidade de Copenhague, Katholieke Universiteit Leuven, entre outras instituições europeias.

Segundo os autores, a descoberta fortalece a ideia de que o diabetes tipo 1 não é uma doença uniforme.

"Nossos resultados sustentam a existência de uma heterogeneidade biológica na progressão do diabetes tipo 1 após o diagnóstico e contribuem para uma compreensão mais profunda da dinâmica molecular associada à evolução da doença", afirmam os pesquisadores no artigo.


Um comportamento diferente em cada paciente

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico destrói as células beta produtoras de insulina no pâncreas. Embora todos os pacientes dependam da reposição do hormônio, a velocidade dessa destruição varia consideravelmente.

Há décadas médicos observam que algumas crianças perdem rapidamente a capacidade de produzir insulina, enquanto outras conseguem preservar parte da função pancreática por anos. Até agora, entretanto, não havia biomarcadores suficientemente robustos para explicar essas diferenças.

A nova pesquisa utilizou técnicas de transcriptômica — área que analisa quais genes estão ativos em determinado momento — para acompanhar pacientes logo após o diagnóstico e um ano depois.

Comparação das alterações do transcriptoma durante a progressão do diabetes tipo 1 entre as coortes First ND (93 pacientes) e Next ND (168 pacientes). (A) Amostras de sangue total foram coletadas de pacientes recém-diagnosticados como parte do estudo INNODIA no momento do diagnóstico e após 1 ano de acompanhamento (139 amostras da coorte First ND, 317 amostras da coorte Next ND), enquanto as variáveis ??clínicas estavam disponíveis em várias visitas de acompanhamento...

Inicialmente foram avaliados 93 indivíduos. Em seguida, uma segunda coorte independente com 168 novos pacientes foi incorporada ao estudo para validar os resultados anteriores, aumentando significativamente o poder estatístico da investigação.

Mais de mil genes sofrem alterações

Ao combinar os dois grupos, os pesquisadores identificaram 1.083 genes cuja atividade se modificou significativamente durante o primeiro ano da doença.

A maioria dessas alterações ocorreu na redução da atividade de genes ligados às respostas do interferon — moléculas fundamentais na regulação do sistema imunológico — enquanto outros genes relacionados ao metabolismo celular apresentaram aumento de atividade.

Também foram observadas alterações importantes em genes já conhecidos por sua participação na predisposição genética ao diabetes tipo 1, como PTPN22, PTPN2 e TOX2.

Idade faz diferença

Os resultados confirmaram outro aspecto conhecido pelos endocrinologistas: quanto mais jovem o paciente no momento do diagnóstico, mais rápida tende a ser a evolução da doença.

Crianças menores de oito anos apresentaram perda significativamente mais acelerada da função pancreática quando comparadas aos adolescentes acima de 14 anos.

Além da idade, os cientistas identificaram um fator inesperado: pacientes que apresentavam redução relativa dos neutrófilos, um tipo de glóbulo branco responsável pela defesa do organismo, evoluíam mais rapidamente para a perda da produção de insulina.


Para os pesquisadores, esse achado reforça evidências de que alterações do sistema imunológico continuam desempenhando papel importante mesmo após o diagnóstico clínico da doença.

Quarenta e sete genes chamam atenção

Entre milhares de genes analisados, os cientistas destacaram 47 cuja atividade apresentou associação consistente com a velocidade de progressão da doença.

Genes ligados à inflamação, como TNF e TNFRSF8, mostraram atividade elevada nos pacientes com evolução mais rápida. Em contrapartida, genes com funções anti-inflamatórias, como IL18BP e SFRP5, apareceram menos ativos nesses mesmos indivíduos.

Segundo os autores, essas diferenças podem representar novos alvos para futuras terapias capazes de preservar as células beta do pâncreas.

Caminho para uma medicina personalizada

Embora os resultados ainda não possam ser utilizados na prática clínica, os pesquisadores acreditam que o estudo representa um passo importante rumo à chamada medicina personalizada.

A possibilidade de identificar, logo após o diagnóstico, quais pacientes apresentam maior risco de rápida deterioração permitiria selecionar candidatos ideais para ensaios clínicos e tratamentos imunológicos destinados à preservação da função pancreática.

"A identificação dessas assinaturas transcriptômicas poderá contribuir para a estratificação de pacientes e para o desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais direcionadas e personalizadas", destacam os autores.

Impacto para milhões de pessoas

Segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF), milhões de pessoas vivem atualmente com diabetes tipo 1 em todo o mundo, sendo a doença uma das principais enfermidades crônicas da infância e da adolescência.

Apesar dos avanços tecnológicos — como sensores contínuos de glicose, bombas de insulina e sistemas automatizados de administração do hormônio — ainda não existe tratamento capaz de interromper definitivamente a destruição autoimune das células beta.

Os pesquisadores ressaltam que compreender os mecanismos moleculares dessa destruição constitui um dos maiores desafios da endocrinologia moderna.

Embora reconheçam limitações, como a necessidade de validação em populações ainda maiores e mais diversas, os autores consideram que a confirmação dos resultados em uma segunda coorte independente representa uma evidência robusta de que as alterações identificadas não são ocasionais.

Para a equipe do consórcio INNODIA, o estudo inaugura uma nova etapa na compreensão da evolução do diabetes tipo 1. Em vez de tratar todos os pacientes da mesma maneira, a perspectiva futura é adaptar terapias de acordo com o perfil biológico individual, aumentando as chances de preservar a produção natural de insulina e reduzir complicações ao longo da vida.


Referência
Transcriptômica da progressão do diabetes tipo 1: um estudo de validação em pacientes recém-diagnosticados. eBioMedicinaVol. 130 106374 Publicado: 7 de julho de 2026. Consórcio INNODIA. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106374

 

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