Saúde

Células de câncer 'imitam' cicatrização para espalhar metástases, revela estudo
Pesquisa publicada na Nature Communications identifica mecanismo inédito usado pelo câncer colorretal para invadir outros órgãos e aponta novo alvo para futuras terapias
Por Laercio Damasceno - 11/07/2026


imgem: Reprodução


A metástase — responsável pela maioria das mortes por câncer — acaba de revelar um de seus segredos mais sofisticados. Cientistas japoneses descobriram que células do câncer colorretal conseguem "se disfarçar" de células envolvidas na cicatrização da pele para escapar do tumor original, viajar pelo organismo e iniciar novos focos da doença. A descoberta abre uma nova frente de investigação para tratamentos capazes de interromper esse processo antes que o câncer se espalhe.

O estudo foi publicado na revista Nature Communications, nesta sexta-feira (10), e liderado por pesquisadores da Japanese Foundation for Cancer Research (JFCR), em Tóquio, com colaboração da Universidade de Kyoto, da Universidade Juntendo e da Yale School of Medicine, nos Estados Unidos. A pesquisa teve como primeiro autor Mizuho Sakahara, juntamente com Takuya Okamoto, sob coordenação do pesquisador Ryoji Yao.

A investigação desafia um conceito estabelecido na biologia do câncer. Até então, acreditava-se que as células responsáveis pela metástase preservavam características semelhantes às células-tronco do tumor original. O novo trabalho demonstra que, durante a disseminação, essas células abandonam temporariamente essa identidade e assumem um programa biológico típico da regeneração de feridas na pele.

Segundo os pesquisadores, essa transformação é transitória, mas essencial para que o câncer consiga migrar pelo organismo.

"Mostramos que as células do câncer colorretal adotam temporariamente um programa de cicatrização normalmente utilizado por queratinócitos epidérmicos durante a reparação dos tecidos para permitir sua disseminação metastática", afirmam os autores no artigo.


A principal causa de mortes

O câncer colorretal está entre os tumores mais frequentes do mundo. Embora muitos pacientes possam ser curados quando a doença permanece localizada, a metástase continua sendo a principal responsável pelos óbitos.

A Organização Mundial da Saúde estima milhões de novos casos anuais, tornando o tumor um dos maiores desafios da oncologia moderna. Apesar dos avanços em cirurgia, quimioterapia e imunoterapia, impedir que células tumorais deixem o intestino e colonizem órgãos como fígado e pulmões continua sendo um dos maiores obstáculos da medicina.

O novo estudo concentrou-se justamente nesse momento crítico.

Células raras e quase invisíveis

Os pesquisadores estudaram as chamadas células tumorais disseminadas (Disseminated Tumor Cells – DTCs), consideradas extremamente raras e praticamente inacessíveis em pacientes.

Essas células deixam o tumor primário muito antes do surgimento das metástases visíveis.

Para investigá-las, a equipe desenvolveu um sofisticado modelo experimental utilizando organoides derivados de tumores humanos transplantados em camundongos, permitindo acompanhar todas as etapas da disseminação tumoral.

Foi nesse modelo que surgiu a principal surpresa.

Durante a migração, as células perderam marcadores clássicos de células-tronco intestinais, como LGR5 e OLFM4, passando a expressar proteínas normalmente encontradas em células da pele durante processos de cicatrização, especialmente KRT17, além de KRT6A e KRT16.

Um "disfarce" biológico

Os cientistas descrevem o fenômeno como um caso extraordinário de plasticidade celular.

Na prática, células do intestino passam a utilizar um programa genético típico da epiderme.

Durante a cicatrização da pele, proteínas como KRT17 ajudam células a migrar rapidamente para fechar feridas. O câncer parece aproveitar exatamente essa mesma estratégia para facilitar sua própria disseminação.

Após atingir órgãos distantes, entretanto, essas células abandonam esse estado transitório e voltam a apresentar características semelhantes às do tumor original, permitindo o crescimento da metástase.

YAP e EZH2 entram no radar

A pesquisa também identificou dois importantes reguladores moleculares envolvidos nessa transformação.

Os experimentos mostraram que a ativação da proteína YAP e a redução da atividade da enzima EZH2 favorecem o aparecimento das células positivas para KRT17.

Quando os pesquisadores combinaram um ativador de YAP com um inibidor de EZH2, observaram aumento superior a cem vezes na expressão de KRT17, acompanhado de maior capacidade de disseminação das células tumorais em modelos experimentais.

Os resultados sugerem que esses mecanismos podem se tornar futuros alvos terapêuticos.

Evidências em pacientes

A equipe não limitou as análises aos modelos laboratoriais.

A presença de células KRT17 também foi confirmada em amostras cirúrgicas de pacientes com câncer colorretal.

Elas apareciam concentradas principalmente na borda invasiva dos tumores — justamente a região onde ocorre a saída das células cancerígenas para outros tecidos.

Em uma reanálise de dados de sequenciamento de célula única provenientes de 62 pacientes, os pesquisadores verificaram que células KRT17 estavam presentes em diferentes proporções entre os tumores humanos, reforçando a relevância clínica da descoberta.

Novas possibilidades terapêuticas

Embora os autores ressaltem que ainda são necessários estudos para comprovar como bloquear esse mecanismo em pacientes, o trabalho oferece uma nova perspectiva para combater a metástase.

Em vez de atacar apenas os tumores já estabelecidos, futuras terapias poderão mirar especificamente as células responsáveis pela disseminação inicial.

Segundo os pesquisadores, compreender essas células poderá representar um passo decisivo para reduzir a mortalidade associada ao câncer colorretal.

No encerramento do artigo, os autores destacam que ainda permanecem perguntas fundamentais: como essas células surgem, qual é exatamente seu destino após chegarem a órgãos distantes e se elas próprias originam as metástases ou apenas facilitam esse processo. Mesmo assim, defendem que a identificação desse estado celular transitório representa uma mudança importante na compreensão da biologia da metástase e poderá orientar o desenvolvimento de estratégias terapêuticas capazes de impedir que o câncer se espalhe antes mesmo de formar novos tumores.


Referência
Sakahara, M., Okamoto, T., Kumegawa, K. et al. O câncer colorretal cooptou um programa de cicatrização de feridas epidérmicas durante a metástase para gerar células tumorais disseminadas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-75296-y

 

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