Aspirina ganha força como aliada contra câncer colorretal em pacientes com mutações específicas
Meta-análise internacional aponta redução de até 39% no risco de recorrência da doença em subgrupo de pacientes, reforçando caminho da medicina personalizada

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A aspirina, durante décadas, ocupou lugar cativo nas farmácias do mundo como medicamento para aliviar dores, combater inflamações e prevenir doenças cardiovasculares. Agora, um dos remédios mais antigos da medicina moderna volta ao centro das atenções por um motivo ainda mais ambicioso: ajudar a impedir a volta do câncer colorretal em pacientes geneticamente selecionados.
Um estudo internacional publicado na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, nesta segunda-feira (21), reuniu pesquisadores de instituições como a University of Bern, University of Sydney, Walter and Eliza Hall Institute of Medical Research, University of Melbourne, Monash University, National Cancer Centre Singapore e diversas universidades da Ásia e Oceania para investigar se a aspirina pode aumentar a sobrevida livre da doença após o tratamento convencional.
A pesquisa integra o estudo translacional do ensaio clínico ASCOLT, coordenado por Eva Segelov, Oliver M. Sieber e John Simes, envolvendo centenas de pacientes tratados em 11 países.
Embora o estudo principal não tenha encontrado benefício estatisticamente significativo para todos os pacientes, a análise combinada de três grandes ensaios clínicos revelou um resultado considerado altamente promissor: indivíduos cujos tumores apresentam mutações específicas no gene PIK3CA (éxons 9 e 20) tiveram redução de aproximadamente 39% no risco de recorrência do câncer, com razão de risco (HR) de 0,61.
Segundo os autores, trata-se de uma das evidências mais consistentes até agora de que a genética do tumor pode indicar quais pacientes realmente se beneficiam da aspirina após a cirurgia e a quimioterapia.
"O conjunto das evidências demonstra melhora da sobrevida livre da doença entre pacientes portadores de mutações PIK3CA nos éxons 9 e 20", afirmam os pesquisadores na conclusão do trabalho.
Câncer frequente e desafio mundial
O câncer colorretal é atualmente o terceiro tipo de câncer mais comum do planeta. Dados apresentados pelos pesquisadores mostram que quase 2 milhões de pessoas recebem esse diagnóstico todos os anos, enquanto aproximadamente 1 milhão morre em decorrência da doença, tornando-a a segunda principal causa de morte por câncer no mundo.
Apesar dos avanços na cirurgia, quimioterapia e terapias-alvo, ainda existe grande preocupação com a recorrência da doença após o tratamento inicial.
Foi justamente nesse cenário que nasceu o estudo ASCOLT.
O que os pesquisadores fizeram
O ensaio clínico original recrutou 1.587 pacientes com câncer colorretal em estágio potencialmente curável. Todos haviam concluído o tratamento convencional e foram sorteados para receber diariamente 200 mg de aspirina ou placebo durante três anos, sendo acompanhados por até cinco anos.
Posteriormente, uma análise molecular avaliou amostras tumorais de centenas desses participantes.
Entre 397 pacientes analisados quanto ao gene PIK3CA, apenas 69 apresentavam mutações, correspondendo a cerca de 17% da amostra. Já a superexpressão da proteína COX-2 foi observada em 69% dos tumores.
Isoladamente, essa análise não mostrou diferença estatística suficiente entre aspirina e placebo.
Entretanto, quando seus resultados foram combinados com os estudos SAKK 41/13 e ALASCCA, surgiu uma evidência robusta em favor do uso da aspirina para pacientes portadores das mutações específicas do PIK3CA.
Medicina personalizada
Para os pesquisadores, o principal avanço não é transformar a aspirina em tratamento universal contra o câncer.
Ao contrário.
A descoberta reforça a tendência da chamada medicina personalizada, na qual o perfil genético do tumor passa a orientar decisões terapêuticas.
Os autores destacam que não houve benefício claro para tumores caracterizados apenas pela superexpressão da proteína COX-2 nem para outros grupos moleculares estudados, indicando que novos ensaios clínicos ainda são necessários antes de ampliar a recomendação do medicamento.
O impacto da pesquisa já começa a aparecer na prática clínica.
Segundo os autores, as diretrizes da National Comprehensive Cancer Network (NCCN) passaram recentemente a recomendar o uso de aspirina em baixa dose como tratamento adjuvante para pacientes com mutações somáticas em PIK3CA, embora os pesquisadores defendam cautela antes de expandir essa indicação para outros perfis genéticos.
Um medicamento barato com enorme potencial
Outro aspecto destacado pelos cientistas é o custo.
Diferentemente de terapias oncológicas modernas que podem custar centenas de milhares de dólares por paciente, a aspirina é um medicamento amplamente disponível, barato e presente praticamente em todos os sistemas de saúde.
Caso estudos em andamento confirmem os resultados, seu impacto poderá ser especialmente importante em países de baixa e média renda.
Os pesquisadores lembram que há dez ensaios clínicos internacionais investigando o papel da aspirina contra o câncer, somando mais de 7 mil participantes, o que deverá esclarecer definitivamente quais pacientes podem se beneficiar da estratégia.
Para os autores, a mensagem principal é clara: a aspirina não deve ser encarada como solução para todos os casos de câncer colorretal, mas pode representar uma ferramenta valiosa para um grupo específico de pacientes identificado por testes genéticos. Se essa hipótese continuar sendo confirmada, um medicamento criado há mais de um século poderá ganhar um novo papel na oncologia de precisão do século XXI.
Referência
Aspirina adjuvante para câncer colorretal com tumores com mutação PIK3CA e superexpressão de COX-2: o estudo de pesquisa translacional e meta-análise ASCOLT. eBioMedicinaVol. 130 106389 Publicado: 20 de julho de 2026. Eva Segelov, Shan Li, Isabel Li, Dmitri Mouradov, Sonia Yip, Daphne Daye outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106389