Saúde

Nova imunoterapia mostra respostas duradouras contra câncer raro e agressivo, mas ainda enfrenta desafio de ampliar eficácia
Estudo aponta que combinação inédita de anticorpos controla a doença em quase metade dos pacientes com câncer das vias biliares resistente aos tratamentos atuais e abre caminho para uma nova geração de terapias personalizadas
Por Laercio Damasceno - 22/07/2026


Imagem: Reprodução


A busca por alternativas para um dos tipos mais letais de câncer acaba de ganhar um novo capítulo. Um estudo internacional publicado na revista Nature Communications, nesta terça-feira (21), apresenta resultados promissores de uma imunoterapia experimental para pacientes com câncer das vias biliares avançado que já haviam deixado de responder aos tratamentos convencionais. Embora o ensaio clínico não tenha atingido seu objetivo principal de eficácia, os pesquisadores observaram respostas duradouras, perfil de segurança considerado favorável e indícios importantes sobre como tornar futuras terapias mais eficientes.

A pesquisa foi liderada pelo oncologista David Hsiehchen, da University of Texas Southwestern Medical Center, em Dallas (Estados Unidos), em colaboração com John H. Lohrey, Radhika Kainthla, Syed Mohammad Ali Kazmi, Nilesh Verma, Carrie Manwaring, Chul Ahn e Hao Zhu, todos vinculados ao mesmo centro acadêmico e ao Harold C. Simmons Comprehensive Cancer Center. O artigo foi aceito para publicação em 6 de julho de 2026.

Os tumores das vias biliares — grupo que inclui o colangiocarcinoma e o câncer da vesícula biliar — continuam entre os cânceres de pior prognóstico. Nas últimas décadas, sua incidência aumentou em diversos países, enquanto as opções terapêuticas permaneceram limitadas. Mesmo com os avanços recentes da imunoterapia baseada no bloqueio da proteína PD-1, a maioria dos pacientes apresenta progressão da doença poucos meses após o tratamento inicial.

Foi justamente diante desse cenário que a equipe desenvolveu o estudo LIVERTI, um ensaio clínico de fase 2 que avaliou a combinação de dois anticorpos monoclonais: domvanalimab, direcionado contra a proteína TIGIT, e zimberelimab, que bloqueia a PD-1. A hipótese era que o bloqueio simultâneo dessas duas vias imunológicas pudesse reativar o sistema imunológico mesmo em pacientes cuja doença já havia se tornado resistente à imunoterapia tradicional.

Entre junho de 2023 e março de 2025, os pesquisadores recrutaram 35 pacientes com doença avançada. Após os critérios de elegibilidade e acompanhamento, 29 pacientes puderam ser avaliados quanto à eficácia e 33 quanto à segurança do tratamento. A idade mediana foi de 67 anos, sendo a maioria portadora de colangiocarcinoma intra-hepático e já submetida a múltiplas linhas terapêuticas.

Os resultados revelaram uma taxa de resposta objetiva de 10,3%, com três pacientes apresentando redução mensurável dos tumores. Outros dez pacientes alcançaram estabilização da doença, elevando a taxa de controle para 44,8%. Embora esses números tenham ficado abaixo da meta previamente estabelecida pelos pesquisadores, a duração das respostas chamou atenção: entre aqueles que responderam ao tratamento, a mediana foi de 13,6 meses, tempo considerado expressivo para pacientes com doença tão avançada. A sobrevida livre de progressão em seis meses foi de 17,2%.

Outro aspecto considerado animador foi a segurança do tratamento. Apenas 36,4% dos participantes apresentaram eventos adversos relacionados diretamente aos medicamentos, predominando manifestações leves, como coceira e erupções cutâneas. Não foram registrados eventos graves atribuídos à combinação terapêutica, reforçando a possibilidade de sua utilização em estudos maiores.

Segundo os autores, apesar de o estudo não ter alcançado o desfecho primário previsto no protocolo, a combinação apresentou características importantes que justificam novas investigações. Os pesquisadores destacam que muitos pacientes permaneceram com doença controlada por períodos prolongados, sugerindo que o bloqueio da proteína TIGIT pode produzir uma modulação imunológica sustentada mesmo quando não ocorre redução expressiva do tumor.

Um dos diferenciais da pesquisa foi a utilização do DNA tumoral circulante (ctDNA) como ferramenta para acompanhar a resposta ao tratamento em tempo real. A análise mostrou que pacientes cuja quantidade de DNA tumoral diminuiu nas primeiras semanas apresentaram melhores resultados clínicos. Em contrapartida, o aumento desses marcadores moleculares esteve associado à progressão da doença. Os cientistas também identificaram alterações genéticas em vias relacionadas aos genes RAS, receptores tirosina-quinase e mecanismos de reparo do DNA, possíveis responsáveis pela resistência ao tratamento. Essas descobertas poderão orientar futuras combinações terapêuticas e estratégias mais personalizadas para cada paciente.

No artigo, David Hsiehchen e seus colaboradores afirmam que os resultados "apoiam a continuidade da investigação de estratégias baseadas no bloqueio da TIGIT", especialmente em associação com outros tratamentos imunológicos. Os autores ressaltam que o estudo possui limitações importantes, entre elas o pequeno número de participantes e o desenho aberto, características típicas de ensaios exploratórios de fase 2. Por isso, destacam que estudos maiores e randomizados serão indispensáveis antes que a terapia possa ser incorporada à prática clínica.

Especialistas consideram que o trabalho representa mais um passo na evolução da imunoterapia oncológica. Nos últimos dez anos, medicamentos capazes de "destravar" o sistema imunológico revolucionaram o tratamento de vários tumores. Entretanto, parte significativa dos pacientes desenvolve mecanismos de escape que permitem ao câncer voltar a crescer. O bloqueio simultâneo das proteínas PD-1 e TIGIT busca justamente superar essa resistência, estratégia que vem sendo investigada em diferentes tipos de câncer.

Embora os resultados ainda sejam preliminares, o estudo reforça uma tendência crescente na oncologia moderna: combinar imunoterapias com análises genéticas altamente precisas para identificar quais pacientes realmente poderão se beneficiar de cada tratamento. Se confirmados em pesquisas maiores, esses avanços poderão representar uma nova esperança para pessoas diagnosticadas com câncer das vias biliares, uma doença historicamente marcada por poucas opções terapêuticas e baixas taxas de sobrevivência.


Referência
Hsiehchen, D., Lohrey, JH, Kainthla, R. et al. Domvanalimab mais zimberelimab em cânceres irressecáveis ??e refratários à imunoterapia do trato biliar: um ensaio clínico de fase 2. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-75554-z

 

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