Radioterapia após mastectomia preserva qualidade de vida, mas amplia sintomas locais, aponta maior estudo internacional
Ensaio clínico com 1.691 mulheres mostra que tratamento não altera indicadores globais de bem-estar cinco anos após a cirurgia, embora aumente desconfortos na parede torácica; resultados devem influenciar decisões médicas e diretrizes clínicas

Imagem: Reproduçâo
A radioterapia da parede torácica após a mastectomia consolidou-se, por décadas, como uma das principais estratégias para reduzir o risco de recorrência do câncer de mama em determinados grupos de pacientes. Entretanto, uma questão permaneceu aberta mesmo diante dos avanços terapêuticos: qual é o impacto desse tratamento sobre a qualidade de vida das mulheres a longo prazo? A resposta começa a ganhar contornos mais precisos com os resultados do estudo internacional SUPREMO, publicados na revista científica The Lancet Oncology, neste sábado (1º), que avaliou pacientes por cinco anos e concluiu que, embora a radioterapia aumente sintomas localizados na parede torácica, ela não compromete a qualidade de vida global nem indicadores físicos, emocionais ou psicológicos de longo prazo.
O trabalho representa um dos maiores ensaios clínicos randomizados já realizados sobre o tema. Entre agosto de 2006 e abril de 2013, o estudo recrutou 1.691 mulheres em diferentes países. Após a verificação dos critérios de elegibilidade, 1.679 pacientes foram distribuídas aleatoriamente entre dois grupos: 845 receberam radioterapia da parede torácica após a mastectomia e 834 seguiram o tratamento sem radioterapia.
A pesquisa concentrou-se em mulheres com câncer de mama considerado de risco intermediário — grupo para o qual persistem debates sobre a real necessidade da radioterapia após a cirurgia. No Reino Unido, 1.233 pacientes foram elegíveis para participar do subestudo de qualidade de vida, e 989 aceitaram responder questionários padronizados, correspondendo a aproximadamente 80% das mulheres convidadas. Destas, 947 devolveram os questionários iniciais, enquanto 620 pacientes ainda participavam da avaliação prevista cinco anos depois, índice considerado elevado para estudos longitudinais dessa duração.
Para mensurar os efeitos do tratamento, os pesquisadores empregaram instrumentos internacionalmente validados, incluindo os questionários da Organização Europeia para Pesquisa e Tratamento do Câncer (EORTC), além das escalas de imagem corporal e dos índices hospitalares de ansiedade e depressão. As avaliações ocorreram antes da randomização e depois de um, dois, cinco e dez anos de acompanhamento.
Os resultados revelam um cenário mais equilibrado do que se imaginava. A radioterapia esteve associada a um aumento estatisticamente significativo dos sintomas na parede torácica, com estimativa de efeito de 1,99 ponto (IC 95%: 0,36 a 3,62; p = 0,017). Apesar disso, esses sintomas diminuíram progressivamente entre o primeiro, o segundo e o quinto ano após o tratamento, sugerindo que parte dos efeitos adversos tende a reduzir-se com o tempo.
Outro dado relevante envolve a quimioterapia. As pacientes submetidas a esse tratamento apresentaram recuperação mais lenta dos sintomas locais, com estimativa de efeito de 2,97 (IC 95%: 0,24–5,71; p = 0,033). Ainda assim, os pesquisadores não identificaram interação significativa entre quimioterapia e radioterapia capaz de modificar substancialmente os resultados gerais do estudo.
O principal achado, contudo, está na ausência de diferenças estatisticamente significativas em praticamente todos os demais indicadores avaliados. Não foram observadas alterações relevantes na qualidade de vida global, fadiga, funcionamento físico, dor, imagem corporal, sintomas nos braços e ombros, ansiedade ou depressão entre as mulheres que receberam radioterapia e aquelas que não passaram pelo tratamento. Em outras palavras, embora a intervenção produza maior desconforto localizado, ela não parece comprometer a percepção geral de saúde e bem-estar cinco anos após a cirurgia.

As análises por subgrupos identificaram, entretanto, uma população que merece atenção especial. Mulheres submetidas inicialmente à biópsia do linfonodo sentinela e posteriormente ao esvaziamento axilar apresentaram sintomas significativamente mais intensos quando também receberam radioterapia da parede torácica. Segundo os pesquisadores, essa combinação pode aumentar a morbidade local e deve ser considerada na escolha individualizada do tratamento.
Na interpretação apresentada pelos autores, os resultados reforçam que os benefícios e riscos da radioterapia devem ser discutidos conjuntamente entre médicos e pacientes. O estudo destaca que os dados de qualidade de vida podem complementar as evidências já divulgadas anteriormente pelo próprio ensaio SUPREMO, que não encontrou benefício da radioterapia sobre a sobrevida global em dez anos nem impacto expressivo sobre a recorrência local nesse grupo específico de risco intermediário.
No artigo, os pesquisadores afirmam que as evidências "contribuem para a base científica das diretrizes clínicas" e ajudam pacientes e oncologistas a tomar decisões mais informadas, considerando não apenas a eficácia oncológica, mas também os efeitos percebidos pelas próprias mulheres ao longo dos anos. O estudo também sugere que técnicas cirúrgicas menos invasivas para abordagem dos linfonodos poderão reduzir ainda mais os impactos físicos observados em parte das pacientes.
Coordenado por Galina Velikova, do Leeds Institute of Medical Research, em parceria com pesquisadores da University of Edinburgh, The Netherlands Cancer Institute, The Christie Hospital e outras instituições britânicas e europeias, o ensaio foi financiado pelo UK Medical Research Council, pelo National Institute for Health and Care Research, pela European Organisation for Research and Treatment of Cancer e por outras agências de pesquisa.
Ao reunir quase duas décadas de acompanhamento clínico e centenas de avaliações de pacientes, o SUPREMO fornece uma das bases científicas mais robustas já produzidas sobre os efeitos da radioterapia após a mastectomia.
Para especialistas, a principal mensagem é clara: a decisão terapêutica deve equilibrar riscos e benefícios individuais. A radioterapia continua produzindo efeitos adversos locais mensuráveis, mas, segundo as evidências apresentadas, esses impactos não se traduzem em perda significativa da qualidade de vida global cinco anos após o tratamento, oferecendo informações importantes para a prática clínica contemporânea e para a construção de decisões compartilhadas entre equipes médicas e pacientes.
Referência
Radioterapia da parede torácica pós-mastectomia para câncer de mama (SUPREMO): resultados de qualidade de vida em 5 anos de um estudo randomizado, controlado, de fase 3. The Lancet OncologyVol. 27 No. 8 p959 Publicado: Agosto de 2026. Investigadores do ensaio clínico MRC SUPREMO no Reino Unido. DOI: 10.1016/S1470-2045(26)00122-1Link externo