Estudo com 315 mil adultos em 76 países revela que a desigualdade na saúde cardíaca se amplia depois do diagnóstico — e mostra que as maiores lacunas de tratamento nem sempre correspondem aos maiores benefícios potenciais da prevenção

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As desigualdades econômicas na saúde cardiovascular não terminam na porta do consultório. Em muitos sistemas de saúde, elas parecem ganhar força justamente depois que uma doença é identificada. Essa é uma das conclusões centrais de uma análise internacional publicada em 2026, que reuniu dados individuais de 315.403 adultos em 76 países, distribuídos por cinco regiões da Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo examinou três grandes fatores de risco — hipertensão, diabetes e hipercolesterolemia — acompanhando uma sequência que vai do diagnóstico ao tratamento e, finalmente, ao controle da doença.
O trabalho, liderado por Bamba Gaye, do Institut Pasteur de Dakar, no Senegal, e realizado em colaboração com pesquisadores de instituições como Universidade de Oxford, Universidade de Glasgow, Emory University, Université Paris Cité, University of Pittsburgh e University of Cape Town, utilizou 109 pesquisas nacionais realizadas entre 2002 e 2024. Dos 478.947 participantes originalmente disponíveis, 315.403 — 65,9% — preencheram os critérios necessários para a análise. A idade mediana foi de 40 anos; 58,7% eram mulheres e 41,3%, homens.
A escala da investigação permite enxergar algo que estudos isolados dificilmente capturam: a desigualdade não é apenas uma diferença entre pessoas que têm ou não acesso ao diagnóstico. Ela se transforma ao longo da chamada “cascata de cuidados”.
O diagnóstico é apenas o começo
Para hipertensão, por exemplo, os pesquisadores encontraram uma prevalência global de 34,2% entre os participantes com dados disponíveis. Para diabetes, o índice foi de 13,0%; para hipercolesterolemia, 16,2%. Mas os números mudam radicalmente quando se observa o que acontece depois que essas condições estão presentes.
Na região africana, a conscientização sobre hipertensão ficou em aproximadamente 28,8% a 30,7%, contra 49,1% a 51,3% na região europeia. O tratamento também apresentou diferença expressiva: cerca de 11,0% a 12,1% dos hipertensos estavam em tratamento na África, diante de 27,6% a 28,9% na Europa. O controle da pressão arterial foi ainda mais baixo: aproximadamente 4,1% a 4,9% na região africana, contra 8,3% a 10,0% na europeia.
A desigualdade aumenta à medida que o paciente avança pela cascata. Quando os pesquisadores consideraram todos os cinco quintis de riqueza, o índice de desigualdade para o controle da hipertensão foi de 4,4 pontos percentuais; para diabetes, 4,8 pontos; e para hipercolesterolemia, 6,5 pontos.
Em alguns cenários, a distância foi ainda maior. Na Europa, a diferença de controle do diabetes entre os quintis de menor e maior riqueza chegou a 13,7 pontos percentuais. Nas Américas, o controle da hipertensão apresentou um gradiente de 9,2 pontos percentuais em favor dos grupos mais ricos.
O resultado desloca o foco da pergunta. O problema não é somente “quem consegue ser diagnosticado?”, mas também “quem consegue permanecer tratado e chegar ao controle?”.
Uma desigualdade que muda de direção
Um dos aspectos mais surpreendentes do estudo aparece quando as doenças são analisadas separadamente.
Na região africana, a desigualdade no acesso não segue uma única direção. A conscientização e o tratamento da hipercolesterolemia, por exemplo, apresentaram maior cobertura entre indivíduos dos grupos de menor riqueza. Para o tratamento da hipercolesterolemia, o índice de desigualdade chegou a -37,6 pontos percentuais.
Os autores sugerem uma explicação relacionada à própria maneira como as doenças entram no sistema de saúde. A hipercolesterolemia frequentemente é assintomática e depende de exames bioquímicos, que podem ser realizados em serviços públicos capazes de alcançar populações de menor renda. O diabetes, por outro lado, pode chegar ao sistema por sintomas e depois exigir acompanhamento prolongado, medicamentos e acesso financeiro contínuo.
Como resumem os pesquisadores, “A desigualdade reflete a maneira como cada condição chega ao sistema de saúde, e não simplesmente a quantidade de assistência disponível.” — a desigualdade reflete a forma como cada doença entra no sistema de saúde, e não simplesmente a quantidade de atendimento disponível.
O paradoxo do risco
O achado mais importante, porém, surge quando desigualdade e risco cardiovascular são colocados na mesma equação.
Os indivíduos pertencentes ao grupo de menor riqueza apresentaram risco cardiovascular previsto em dez anos de 13,6%, contra 12,2% entre os mais ricos. Ainda assim, a redução absoluta potencial do risco não acompanhou simplesmente os locais onde as lacunas de tratamento eram maiores.
Nas simulações realizadas pelos pesquisadores, a redução absoluta média estimada do risco cardiovascular em dez anos variou de 2,5% na região africana a 3,9% na região europeia quando foram utilizados os efeitos completos observados em ensaios clínicos. Quando a eficácia foi reduzida à metade, os valores passaram a variar entre 1,3% e 2,0%; com um terço da eficácia, entre 0,9% e 1,3%.
O contraste é fundamental: a região africana apresentava a menor cobertura de tratamento, mas também a menor redução absoluta de risco projetada. A Europa, embora apresentasse cobertura muito superior, mostrou o maior benefício absoluto potencial. Segundo os autores, o benefício acompanhou principalmente o risco cardiovascular basal, e não simplesmente a quantidade de pessoas sem tratamento.

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Isso não significa que a expansão do tratamento seja menos importante em populações de baixa cobertura. Os pesquisadores fazem uma ressalva explícita: a estimativa de benefício é uma medida de ganho agregado de saúde, e não uma medida de necessidade clínica individual. Terapias eficazes continuam indicadas para pessoas elegíveis independentemente do país ou região.
Homens, mulheres e a dimensão demográfica
O estudo também encontrou diferenças segundo o sexo. Na maior parte das regiões, homens apresentaram risco cardiovascular basal e redução absoluta potencial maiores que mulheres. Na Europa, por exemplo, a redução simulada foi de 4,6% entre homens e 3,5% entre mulheres. Os autores atribuem essa diferença principalmente ao maior risco basal observado entre os homens, e não necessariamente a diferenças de acesso ao tratamento.
A idade também alterou fortemente o benefício projetado. Os grupos mais velhos apresentaram reduções absolutas maiores; entre pessoas de 70 a 80 anos, o benefício foi particularmente elevado nas simulações de tratamento indicado, enquanto para terapia lipídica o grupo de 55 a 69 anos apresentou redução média de 4,9%.
Mas os autores alertam contra uma interpretação simplista dos números africanos. A população analisada na região era mais jovem, e o risco cardiovascular em dez anos é fortemente dependente da idade. Portanto, um risco projetado menor hoje não significa necessariamente menor carga cardiovascular ao longo da vida.
Mais diagnóstico não basta
A mensagem política e científica que emerge do trabalho é menos simples do que ampliar o rastreamento.
“Expandir a detecção sem garantir acesso contínuo ao tratamento dificilmente reduzirá a desigualdade.”, afirmam os autores: ampliar a detecção sem assegurar acesso contínuo ao tratamento provavelmente não reduzirá a desigualdade.
O motivo está nos próprios dados. As diferenças socioeconômicas eram relativamente pequenas na prevalência das doenças, aumentavam na etapa do diagnóstico e tornavam-se maiores no tratamento e no controle. Em regiões nas quais a cobertura permanece baixa em praticamente todos os grupos econômicos, simplesmente redistribuir o atendimento pode produzir pouco efeito sem ampliar a capacidade global do sistema — incluindo diagnóstico, medicamentos e atenção primária.
O estudo tem limitações importantes. É uma análise transversal e, portanto, não permite estabelecer causalidade. As estimativas de benefício foram simuladas a partir de reduções de risco observadas em ensaios clínicos, e não de eventos diretamente observados nessa população. Além disso, os métodos laboratoriais e as características das pesquisas variaram entre países.
Ainda assim, a dimensão do conjunto de dados — 315.403 pessoas, 109 pesquisas e 76 países — oferece uma fotografia excepcionalmente ampla da relação entre riqueza, cuidados cardiometabólicos e risco cardiovascular.
A conclusão dos autores é deliberadamente mais complexa do que uma simples divisão entre ricos e pobres: “Equidade e benefício agregado identificam populações diferentes.” — equidade e benefício agregado identificam populações diferentes.
Essa distinção talvez seja a principal contribuição do estudo. A desigualdade pode indicar onde o sistema falha na distribuição do cuidado; o risco absoluto pode indicar onde uma expansão do tratamento produziria maior redução populacional de eventos. São duas lentes diferentes para observar o mesmo problema — e compreender a diferença entre elas pode ser decisivo para desenhar sistemas de saúde capazes não apenas de diagnosticar doenças, mas de controlá-las.
Referência
Desigualdades globais no atendimento cardiometabólico e na redução do risco cardiovascular alcançável por nível de riqueza, região e sexo: uma análise conjunta de dados individuais de participantes de 76 países. A revista The Lancet sobre saúde globalPublicado em: 17 de setembro de 2026 - Colaboradores do Consórcio ASADE
DOI: 10.1016/j.langlo.2026.104082