O calor que mata, adoece e reduz a produtividade: estudo revela o custo humano da crise climática
Relatório publicado na revista The Lancet Public Health aponta 19,3 mil mortes associadas a ondas de calor em 2025, perdas bilionárias na economia e desigualdade na exposição aos riscos.

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Relatório publicado na revista The Lancet Public Health aponta 19,3 mil mortes associadas a ondas de calor em 2025, perdas bilionárias na economia e desigualdade na exposição aos riscos. Pesquisa reúne 80 especialistas de 26 instituições e mostra que os efeitos do aquecimento global já alcançam o trabalho, o sono, a saúde pública e a vida cotidiana.
A crise climática deixou de ser apenas uma ameaça ambiental projetada para o futuro e passou a representar um problema imediato de saúde pública, produtividade econômica e desigualdade social na China. Em 2025, o país registrou o maior número de dias extremamente quentes de sua série histórica, enquanto as mortes associadas às ondas de calor chegaram a 19.338, aproximadamente 70% acima da média anual observada entre 1986 e 2005. Os números fazem parte do relatório The 2026 China Report of the Lancet Countdown on Health and Climate Change, publicado em 28 de outubro de 2026 na revista científica The Lancet Public Health.
O levantamento oferece um retrato abrangente de como as alterações climáticas estão interferindo nas condições de vida da população chinesa. Mais do que contabilizar temperaturas e eventos meteorológicos extremos, os pesquisadores procuraram dimensionar seus efeitos sobre indivíduos, trabalhadores, cidades e sistemas de saúde. A principal conclusão é que o aquecimento global já produz consequências mensuráveis em diferentes dimensões da vida cotidiana, embora seus impactos não sejam distribuídos igualmente pelo território.
A pesquisa foi elaborada pelo Lancet Countdown Asia Centre, sediado na Universidade Tsinghua, em colaboração com 80 especialistas vinculados a 26 instituições. Entre os autores estão Wenjia Cai, Chi Zhang e Shihui Zhang, que contribuíram igualmente para o trabalho, além de Deliang Chen e Peng Gong, responsáveis pela coordenação científica. Participaram pesquisadores de universidades como Tsinghua, Peking, Fudan, Renmin e Sun Yat-sen, além de instituições internacionais, como a University College London e o Potsdam Institute for Climate Impact Research.
O relatório constitui a sétima avaliação anual chinesa do programa Lancet Countdown, iniciativa internacional dedicada a acompanhar as relações entre mudanças climáticas e saúde. Sua metodologia organiza 33 indicadores em cinco grandes áreas: impactos ambientais e vulnerabilidade, adaptação dos sistemas de saúde, transição energética, consequências econômicas e participação pública e política.
A inovação desta edição está na tentativa de aproximar os indicadores nacionais da experiência individual. Além dos números absolutos, os pesquisadores incorporaram medidas por habitante e por trabalhador, permitindo identificar situações nas quais o risco cresce mesmo quando o tamanho da população ou da força de trabalho é considerado.
O calor invade o trabalho e o descanso
A dimensão do problema aparece com particular intensidade no mercado de trabalho. Segundo o estudo, a exposição ao calor provocou uma perda média de 47,7 horas potenciais de trabalho por trabalhador em 2025, o equivalente a seis jornadas de oito horas. Considerando toda a economia, foram 39,6 bilhões de horas perdidas, volume correspondente a aproximadamente 13,5 milhões de empregos em tempo integral.
A situação é ainda mais grave entre trabalhadores expostos diretamente ao ambiente externo, especialmente nos setores agrícola e da construção civil. Nesse grupo, a perda média chegou a 104,4 horas por pessoa, ou 13,1 dias de trabalho. O impacto foi 7,3 vezes superior ao registrado entre trabalhadores de ambientes internos.
O fenômeno também compromete atividades aparentemente distantes da economia. O aumento das temperaturas reduziu as oportunidades de prática segura de exercícios físicos. Em 2025, cada pessoa perdeu, em média, 2,6 horas diárias de atividade física potencialmente segura em razão das condições térmicas, aumento de 87,1% em relação à referência histórica de 1986 a 2005.
O sono também entrou na conta. Com base em uma base nacional de aproximadamente 1,3 milhão de registros de sono, os pesquisadores estimaram que as temperaturas noturnas elevadas provocaram perda anual acumulada de 1.360,9 minutos por pessoa entre 2015 e 2025. O impacto foi particularmente expressivo nas regiões meridionais, embora algumas áreas de maior latitude tenham apresentado os aumentos mais acelerados.
A exposição às ondas de calor compostas, caracterizadas pela persistência de temperaturas elevadas durante o dia e a noite, também avançou. Nas cidades chinesas, a média chegou a 9,4 dias em 2025, contra 2,1 dias no período de referência, entre 1986 e 2005. A elevação de 346,2% evidencia o agravamento das condições que dificultam a recuperação fisiológica durante a noite.
O relatório sintetiza essa transformação com uma observação particularmente contundente: “What an exceptional year once produced, an ordinary one now produces” — aquilo que antes era produzido por um ano excepcional agora é produzido por um ano comum. A frase, apresentada na conclusão coletiva do estudo, resume a passagem de episódios extremos para uma condição de risco cada vez mais recorrente.
Desigualdade climática e novas ameaças sanitárias
Os efeitos do aquecimento não se distribuem uniformemente. As grandes cidades do leste e do centro da China concentram parcela expressiva das mortes absolutas, mas localidades menores apresentam taxas de mortalidade proporcionalmente mais elevadas. Em 2025, 202 cidades registraram mais de uma morte relacionada a ondas de calor por 100 mil habitantes.
A vulnerabilidade também aparece na exposição aos incêndios florestais. O indicador chegou a 8,2 dias por pessoa, aumento de 116,8% em relação à linha de base. A exposição total alcançou 8,9 bilhões de pessoas-dias, com crescimento expressivo em regiões do noroeste chinês.
Outro alerta envolve a dengue. O avanço das condições climáticas favoráveis à transmissão do vírus alcançou cidades situadas em latitudes mais elevadas e regiões anteriormente menos suscetíveis. Municípios das planícies Huang-Huai-Hai e do norte da China passaram a apresentar tendências crescentes de adequação climática à transmissão. Embora os anos de 2023 e 2024 tenham registrado cargas superiores às de 2025, o estudo contabilizou 390 anos-pessoa perdidos por incapacidade ajustados por incapacidade (DALYs) associados à doença em 2025.
Os autores fazem uma distinção importante: condições climáticas favoráveis à transmissão não significam necessariamente aumento imediato dos casos. Vigilância epidemiológica, dinâmica dos surtos e capacidade de resposta sanitária também influenciam os resultados. O risco potencial, portanto, pode avançar antes de aparecer integralmente nas estatísticas de adoecimento.
Uma economia em transição, mas ainda dependente do carvão
Se os indicadores sanitários revelam os custos da crise, os dados econômicos mostram a dimensão de seus efeitos sobre o desenvolvimento. O relatório estima que as perdas de produtividade do trabalho relacionadas ao calor custaram US$ 339,6 bilhões em 2025, equivalentes a 1,74% do Produto Interno Bruto chinês.
Ao mesmo tempo, o país apresenta avanços importantes na transição energética. A participação de fontes de baixo carbono na geração elétrica alcançou aproximadamente 38,8% em 2025. A geração solar cresceu 39,3% e a eólica, 12,5% em relação ao ano anterior.

Mas a contradição permanece: o carvão ainda representava 51,4% do consumo total de energia. A geração termelétrica caiu 0,7%, primeira redução anual em uma década, mas a dependência dos combustíveis fósseis continua sendo um obstáculo à redução dos riscos climáticos e da poluição atmosférica.
Há, entretanto, resultados positivos mensuráveis. A melhoria da qualidade do ar evitou aproximadamente 185.374 mortes prematuras relacionadas à exposição ao material particulado fino entre 2015 e 2023. O dado reforça a relação entre políticas ambientais e benefícios concretos para a saúde.
Avanços institucionais e limites da resposta
A China ampliou seus mecanismos de prevenção. Os sistemas de alerta precoce para riscos à saúde relacionados ao calor alcançaram 20 províncias e 141 cidades. A população abrangida chegou a 767,4 milhões de pessoas, crescimento de 30,5% em comparação com 2024.
O desafio, porém, é transformar cobertura institucional em proteção efetiva, especialmente para idosos, trabalhadores externos e populações com menor acesso à climatização. A posse de aparelhos de ar-condicionado, por exemplo, varia de 243 unidades por cem domicílios em Jiangsu a apenas 4,8 em Qinghai.
Os pesquisadores também identificam limitações importantes. O relatório reúne indicadores construídos com diferentes períodos de referência, bases de dados e metodologias. Nem todas as cidades dispõem de informações para todos os indicadores. Parte dos resultados depende de modelos estatísticos e funções de exposição e resposta, o que exige cautela na interpretação de estimativas de mortalidade e de benefícios ambientais. Além disso, a adequação climática à transmissão de doenças não equivale à incidência efetiva de infecções.
Outra lacuna está na comunicação pública: a participação das questões de saúde nas publicações sobre mudanças climáticas nas redes sociais caiu de 11% para 4%. O estudo não apresenta depoimentos individuais dos autores nem entrevistas com trabalhadores ou pacientes; por isso, seus resultados devem ser entendidos como evidências quantitativas, não como testemunhos pessoais.
A comparação histórica fortalece o diagnóstico. O relatório de 2025 já havia destacado a importância das cidades na gestão dos riscos climáticos. A edição de 2026 aprofunda essa abordagem ao incorporar indicadores individuais e ocupacionais. Os pesquisadores identificaram que, na última década, o crescimento de diversos indicadores de impacto superou o observado nos anos 2000. A exposição à seca extrema, por exemplo, apresentou aumento 287% maior nessa comparação.
A conclusão não é que todas as consequências possam ser atribuídas exclusivamente a um único episódio climático, mas que os indicadores apontam para uma transformação estrutural dos riscos associados ao aquecimento.
O estudo recomenda cinco frentes de atuação: incorporar avaliações de saúde às políticas climáticas, estabelecer métodos padronizados para medir os efeitos sanitários das metas ambientais, identificar populações desproporcionalmente afetadas, ampliar investimentos em tecnologias de adaptação e tratar a redução dos combustíveis fósseis também como estratégia de proteção à saúde.
A oportunidade política é particularmente relevante porque 2026 marca o início do 15º Plano Quinquenal chinês, período no qual o país pretende avançar na redução das emissões e fortalecer sua capacidade de adaptação.
O impacto público da pesquisa ultrapassa as fronteiras chinesas. Como maior produtor mundial de eletricidade renovável e um dos principais emissores de gases de efeito estufa, o país ocupa posição estratégica na resposta internacional à crise climática. Seus resultados demonstram que a transição energética não pode ser avaliada apenas pela expansão de painéis solares, turbinas eólicas ou pela redução das emissões. É necessário verificar se essas transformações efetivamente protegem vidas, diminuem desigualdades e fortalecem os sistemas de saúde.
O alerta central dos pesquisadores é que a resposta climática precisa acompanhar a velocidade com que os riscos avançam. A questão já não se limita à temperatura média do planeta, mas envolve quantas horas de trabalho são perdidas, quantas pessoas deixam de dormir adequadamente, quais populações permanecem expostas e quanto os sistemas públicos precisam investir para evitar consequências ainda mais graves.
A pesquisa transforma, assim, uma questão frequentemente tratada como ambiental em um problema econômico, sanitário e social. E coloca diante dos governos uma exigência cada vez mais difícil de adiar: medir o sucesso das políticas climáticas não apenas pela quantidade de carbono retirada da atmosfera, mas também pelas vidas que elas conseguem proteger.
Referência
Cai, W.; Zhang, C.; Zhang, S. et al. The 2026 China report of the Lancet Countdown on health and climate change: safeguarding individual health through accelerated climate action. The Lancet Public Health, publicado em 28 de outubro de 2026. DOI: 10.1016/S2468-2667(26)00191-X.