O cérebro feminino ao longo da vida: puberdade, gravidez e menopausa revelam três trajetórias distintas de transformação
Estudo longitudinal com 1.095 participantes identifica mudanças estruturais compartilhadas entre a adolescência e a gestação, mas aponta um padrão inesperado na menopausa. Os resultados ampliam a compreensão da plasticidade cerebral feminina...

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Estudo longitudinal com 1.095 participantes identifica mudanças estruturais compartilhadas entre a adolescência e a gestação, mas aponta um padrão inesperado na menopausa. Os resultados ampliam a compreensão da plasticidade cerebral feminina e desafiam interpretações tradicionais sobre envelhecimento e hormônios.
O cérebro feminino não permanece biologicamente indiferente às grandes transições reprodutivas. Da primeira menstruação à gravidez e, décadas depois, à menopausa, alterações hormonais profundas acompanham mudanças na estrutura cerebral. Mas essas transformações obedecem a um mesmo mecanismo biológico ou cada etapa da vida desencadeia uma reorganização específica? Uma investigação publicada em 2026 na Nature Communications oferece uma das comparações mais abrangentes já realizadas sobre essa questão e identifica diferenças que ajudam a redefinir a compreensão da plasticidade cerebral feminina.
Assinado por Sophie R. van ’t Hof, Marieke G. N. Bos, Milou Straathof, Eveline A. Crone e Elseline A. Hoekzema, o estudo reuniu dados longitudinais de 1.095 participantes, distribuídas entre três grupos: meninas atravessando a menarca, mulheres durante a primeira ou segunda gravidez e mulheres passando pela transição menopausal. A principal descoberta é que puberdade e gravidez apresentam padrões parcialmente convergentes de redução da substância cinzenta cortical, enquanto a menopausa revela uma trajetória qualitativamente diferente: durante a transição, não foi identificada redução volumétrica estatisticamente significativa da substância cinzenta total ou cortical.
A dimensão da amostra e, principalmente, a possibilidade de comparar três momentos biológicos distintos sob procedimentos analíticos semelhantes conferem relevância particular à investigação. Em vez de observar cada fenômeno isoladamente, os pesquisadores procuraram identificar quais regiões cerebrais respondem de maneira semelhante às oscilações hormonais e quais apresentam trajetórias próprias.
Uma comparação inédita em três momentos da vida
A investigação utilizou exames longitudinais de ressonância magnética estrutural, comparando imagens cerebrais obtidas em dois momentos para cada participante. Os pesquisadores empregaram ferramentas de análise morfométrica baseadas no programa FreeSurfer, versão 7, para estimar alterações no volume da substância cinzenta total, cortical e subcortical.
O desenho experimental incorporou grupos de controle que permaneceram na mesma condição reprodutiva entre os exames. Na puberdade, foram analisadas 142 participantes: 34 atravessaram a menarca, enquanto 49 permaneceram pré-menarca e 59 já haviam passado pela primeira menstruação. Na gravidez, o grupo reuniu 110 mulheres, incluindo 40 mães pela primeira vez, 30 pela segunda vez e 40 controles nulíparas. Na menopausa, foram avaliadas 843 mulheres: 120 passaram de uma condição pré-menopausal para pós-menopausal, enquanto 49 permaneceram pré-menopausadas e 674 continuaram pós-menopausadas.
Os intervalos entre os exames também variaram: aproximadamente 16 a 21 meses na puberdade, 15 a 17 meses na gravidez e 33 a 44 meses na menopausa. Para permitir a comparação, as alterações foram expressas como taxas mensais de variação volumétrica.
O resultado mais consistente apareceu nos grupos que atravessaram a menarca e a gravidez. Entre as meninas que passaram pela primeira menstruação, a redução mensal estimada foi de 0,13% na substância cinzenta total e 0,16% na cortical. Entre as gestantes, as reduções foram de aproximadamente 0,12% e 0,11%, respectivamente, tanto para mães pela primeira quanto pela segunda vez.
As diferenças em relação aos grupos de controle foram estatisticamente significativas. Na gravidez, por exemplo, a comparação entre mães de primeira viagem e mulheres nulíparas apresentou tamanho de efeito elevado (d = 1,39) para o principal padrão de reorganização cortical. Entre as mães pela segunda vez, o efeito também foi expressivo (d = 1,34).
Esses números reforçam evidências anteriores de que a gestação está associada a modificações estruturais disseminadas, especialmente em regiões envolvidas no processamento social, na cognição e na compreensão dos estados mentais de outras pessoas.
A menopausa produz uma resposta inesperada
O resultado mais surpreendente, entretanto, surgiu na comparação com a menopausa. Ao contrário do que poderia ser esperado diante da redução dos hormônios sexuais, as mulheres que passaram da condição pré-menopausal para a pós-menopausal não apresentaram diminuição estatisticamente significativa do volume total ou cortical da substância cinzenta.
O contraste ganha importância porque os grupos que permaneceram pré-menopausados e pós-menopausados apresentaram reduções significativas nesses mesmos indicadores. A taxa mensal estimada de redução cortical foi de aproximadamente 0,033% no grupo pré-menopausal estável e 0,028% no pós-menopausal estável.
Os autores interpretam esse padrão como uma possível atenuação da trajetória de declínio volumétrico associada ao envelhecimento durante a transição menopausal. Trata-se, contudo, de uma hipótese que exige cautela: a ausência de redução estatisticamente significativa não demonstra, por si só, que a menopausa proteja o cérebro ou interrompa o envelhecimento cerebral.
A análise regional acrescentou outra dimensão à descoberta. Em 33 regiões corticais, observou-se um gradiente no qual a redução associada à puberdade foi maior do que a observada na gravidez, que, por sua vez, superou a encontrada na transição menopausal. Em outras 34 regiões, puberdade e gravidez apresentaram padrões semelhantes entre si, mas diferentes da menopausa. Seis regiões, predominantemente relacionadas à ínsula e ao córtex sensorial, apresentaram um comportamento particularmente associado à puberdade.
No conjunto, os resultados indicam que a semelhança entre puberdade e gravidez não significa identidade biológica. Há convergência em áreas pré-frontais, parietais e temporais, mas divergências importantes em regiões sensoriais, motoras e do cíngulo.
O que os dados demonstram — e o que ainda não explicam
Uma interpretação central da pesquisa é que alterações na substância cinzenta não devem ser automaticamente associadas à perda de capacidade cognitiva. A redução volumétrica pode refletir diferentes processos de reorganização, incluindo modificações na arquitetura das conexões neuronais, na densidade de estruturas celulares e em outros componentes do tecido cerebral.
Durante a adolescência, por exemplo, a redução de determinadas medidas estruturais integra processos conhecidos de maturação e especialização cerebral. Na gravidez, transformações semelhantes podem estar relacionadas à adaptação a novas demandas comportamentais e sociais, embora o estudo não demonstre diretamente que essas alterações produzam melhorias na capacidade de cuidado materno.
Essa distinção é fundamental. A ressonância magnética estrutural identifica mudanças anatômicas, mas não permite determinar, isoladamente, os mecanismos celulares responsáveis por elas nem estabelecer relações causais entre alterações hormonais e comportamento.
A pesquisa também dialoga com trabalhos anteriores que identificaram reduções de substância cinzenta durante a gestação e alterações cerebrais persistentes no período posterior ao parto. Estudos anteriores já haviam associado essas transformações aos níveis de estradiol e a regiões relacionadas à cognição social. Na menopausa, porém, a literatura longitudinal permanecia muito mais limitada, com pesquisas concentradas principalmente em estruturas específicas, como o hipocampo.
Ao ampliar a investigação para o cérebro inteiro, o novo estudo preenche uma lacuna importante, mas também evidencia que o conhecimento sobre essa etapa da vida ainda é incompleto.
As limitações que impedem conclusões definitivas
Os próprios pesquisadores reconhecem restrições metodológicas relevantes. A primeira diz respeito à frequência dos exames. Como as imagens foram obtidas em intervalos relativamente longos, as taxas mensais calculadas podem ocultar trajetórias não lineares, nas quais as mudanças acontecem de maneira mais intensa em determinadas janelas temporais.

Outra limitação envolve a utilização de diferentes equipamentos de ressonância magnética entre as coortes. Embora os pesquisadores tenham adotado procedimentos analíticos semelhantes, as diferenças entre os aparelhos podem afetar comparações absolutas entre os grupos.
Há também uma questão importante relacionada à classificação das transições hormonais. A menarca e a menopausa foram identificadas por respostas autorrelatadas, e não por avaliações clínicas detalhadas. No caso da menopausa, por exemplo, não foi possível distinguir precisamente mulheres na pré-menopausa daquelas que já estavam na perimenopausa.
Além disso, não havia medidas hormonais harmonizadas para todas as participantes. Isso impediu uma análise sistemática da relação entre concentrações de estrogênio e progesterona e as alterações cerebrais observadas. Diferenças de estresse, saúde mental, condições socioeconômicas e utilização de contraceptivos hormonais também não puderam ser avaliadas de maneira uniforme.
Os autores reconhecem ainda que os resultados da menopausa não devem ser interpretados como demonstração de ausência de alterações cerebrais durante toda essa transição. A heterogeneidade temporal das participantes e as limitações dos indicadores utilizados exigem estudos adicionais.
O próximo passo: compreender a biologia das transições
As implicações da investigação ultrapassam a descrição anatômica. Ao demonstrar que diferentes fases reprodutivas apresentam padrões cerebrais distintos, o trabalho abre caminho para uma neurociência mais atenta às particularidades biológicas femininas.
A próxima geração de estudos precisará combinar exames de imagem mais frequentes, dosagens hormonais sistemáticas, avaliações cognitivas e comportamentais e acompanhamento clínico prolongado. Também será necessário investigar se determinadas mudanças estruturais estão relacionadas a diferenças funcionais e se essas alterações persistem, se revertem ou evoluem ao longo dos anos.
O desafio é particularmente relevante porque, historicamente, mulheres permaneceram sub-representadas em diferentes áreas da pesquisa neurocientífica. Os autores destacam que apenas 2% a 6% dos estudos são realizados exclusivamente com participantes do sexo feminino e menos de 5% tratam o sexo como variável analítica.
A contribuição mais importante do trabalho talvez esteja justamente em deslocar a pergunta científica. Em vez de investigar apenas se os hormônios modificam o cérebro, torna-se necessário compreender como, quando e em quais circunstâncias essas alterações acontecem.
A puberdade, a gravidez e a menopausa não constituem versões diferentes de um mesmo fenômeno. São transições biológicas que mobilizam padrões parcialmente compartilhados, mas também específicos, de reorganização cerebral. Compreender essas diferenças poderá transformar a maneira como a ciência investiga o desenvolvimento, a saúde mental, o envelhecimento e a saúde cerebral das mulheres ao longo de toda a vida.
Referência
van 't Hof, SR, Bos, MGN, Straathof, M. et al. Puberdade, gravidez e menopausa apresentam alterações estruturais compartilhadas e distintas ao longo da vida. Nat Commun 17 , 9360 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-76755-2