Saúde

Monóxido de carbono reduz inflamação e perda óssea em animais com periodontite
Molécula sintética libera pequenas quantidades do gás no organismo, controla inflamação e aponta possível estratégia de controle da doença
Por Rita Stella - 05/11/2026


Molécula conseguiu reduzir a inflamação e proteger contra a perda do osso que sustenta os dentes em um modelo animal de periodontite; testes com pessoas são necessários para saber se resultado se repete na doença em humanos, que atinge de 35 a 50% dos adultos no mundo segundo a OMS – Foto: Znkevych/Magnific


Embora seja entendido como vilão, em alguns casos o gás tóxico monóxido de carbono (CO) é capaz de fugir do envenenamento para restabelecer a saúde de animais de laboratório com periodontite. Como o segredo está na dose e no fato do próprio organismo produzir a substância, um grupo de pesquisa da USP em Ribeirão Preto decidiu testar a nova estratégia usando o gás para controlar a resposta do organismo à inflamação, ao invés de combater as bactérias que causam a doença. Os resultados estão na edição de agosto da revista Cytokine.

Coordenada pelo professor Luiz Guilherme Siqueira Branco, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP, a equipe utilizou uma molécula sintética chamada CORM-401, sendo CORM a sigla para carbon monoxide-releasing molecule (molécula doadora de monóxido de carbono), que é capaz de liberar de forma controlada pequenas quantidades de monóxido de carbono no organismo. Administrada aos animais com periodontite, ela conseguiu reduzir a inflamação na gengiva e também no sangue, diminuindo a perda óssea que sustenta os dentes.

Conta o professor que a ideia foi “aproveitar os efeitos biológicos benéficos do CO em pequenas quantidades, evitando os riscos associados à inalação do gás”. É que, apesar de ser conhecido como um gás tóxico em concentrações elevadas, o monóxido de carbono é produzido naturalmente pelo organismo em pequenas quantidades e atua como um “gasotransmissor endógeno [um tipo de mensageiro químico gasoso produzido pelas próprias células] que participa da regulação de processos como inflamação e resposta ao estresse celular”.

A pesquisa, realizada conjuntamente em laboratórios da FORP, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP e da Universidade de Paris-Est-Créteil, França, é a primeira a investigar os efeitos dessa molécula sintética sobre a doença periodontal que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atinge de 35% a 50% da população adulta do mundo, atacando, principalmente, os tecidos que sustentam os dentes e, em estágios avançados, pode levar à perda dentária.

Molécula libera CO contra inflamação local e sistêmica

A CORM-401 ainda é de estrito uso em pesquisas científicas, não sendo aprovado para o consumo humano. Administrada por via oral aos animais de (em) laboratório, depois de ingerida, libera CO em quantidade suficiente para produzir os efeitos biológicos necessários.

Para os testes, os cientistas utilizaram um modelo animal de periodontite em ratos divididos em dois grupos: animais que receberam a CORM-401 e os que receberam outro líquido como controle. Após os tratamentos, foram avaliadas tanto a inflamação local, nas gengivas, quanto a sistêmica, no sangue, e também a perda do osso alveolar (camada de osso da boca), que é responsável por sustentar os dentes.

Os animais tratados com CORM-401 apresentaram menor perda do osso alveolar em comparação com aqueles que receberam a substância de controle. Além de menor perda óssea, os pesquisadores observaram, nos tecidos da gengiva, menores níveis de substâncias envolvidas na resposta inflamatória, como as citocinas TNF- e IL-1B (proteínas produzidas pelas células de defesa que medeiam a inflamação). Verificaram também redução do acúmulo de metabólitos de óxido nítrico (NOx) – indicador associado ao estresse oxidativo.

Segundo Branco, esses resultados ajudam a explicar a proteção observada contra a perda óssea. “Nos animais tratados com CORM-401, observamos redução de vários desses marcadores, o que indica que a molécula diminui a inflamação local. Isso ajuda a explicar por que esses animais também apresentaram menor perda do osso que sustenta os dentes”, afirma.

Uma estratégia voltada à resposta do organismo
Embora se inicie nos tecidos que envolvem os dentes, a periodontite pode estar associada a “um estado de inflamação sistêmica crônica de baixa intensidade”, conta o professor, informando que se trata de um estado caracterizado por alterações inflamatórias persistentes que se estendem para além da cavidade oral e podem afetar o organismo de forma mais ampla. No modelo estudado, os pesquisadores observaram aumento da concentração de TNF- (uma molécula importante na resposta inflamatória) no sangue dos animais com a doença.

Esses níveis da molécula inflamatória TNF- diminuíram significativamente após o tratamento com CORM-401, sugerindo que “a ação não ocorreu apenas no local da periodontite, mas também atenuou sinais de inflamação na circulação”, afirma Branco. Ele destaca, porém, “que esse resultado foi obtido em um modelo experimental com animais e representa a avaliação de um marcador de inflamação sistêmica”.

Resultados do tratamento com a molécula liberadora de monóxido de carbono controlando inflamação sistêmica e local com redução de perda óssea - Imagem: Criada pelo professor Luiz Guilherme Branco

Como o controle da periodontite pede outras medidas além do combate ao acúmulo de bactérias e à infecção que desencadeia a resposta inflamatória, esses resultados podem trazer respostas mais eficientes. Os pesquisadores apontam para uma estratégia complementar voltada à modulação da resposta do próprio organismo. “Controlar a inflamação sem bloquear completamente os mecanismos de defesa pode ser particularmente interessante porque a destruição dos tecidos periodontais está relacionada à resposta inflamatória persistente.”

Porém, insiste o professor, são resultados que ainda não permitem afirmar que a CORM-401 possa ser usada para tratar pessoas com periodontite. Trata-se de uma etapa inicial da investigação e, antes de qualquer aplicação clínica, serão necessários estudos adicionais para avaliar, entre outros aspectos, a eficácia, a segurança, as doses adequadas e a forma de administração da molécula.

“Os achados são importantes porque mostram que a CORM-401 conseguiu reduzir a inflamação e proteger contra a perda do osso que sustenta os dentes em um modelo experimental de periodontite”, afirma, acrescentando ainda que abrem novas possibilidades de investigação sobre terapias que atuem não apenas sobre as bactérias, mas também sobre a resposta inflamatória do organismo.

Mais informações: com o professor Luiz Guilherme de Siqueira Branco, e-mail: branco@forp.usp.br

 

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