Saúde

Pesquisa detalha os impactos da covid-19 para diabanãticos do Brasil
Com a pandemia, 95% dos participantes relataram ficar mais tempo em casa, mas a maioria reduziu a pra¡tica de exerca­cios fa­sicos
Por Fabiana Mariz - 16/07/2020


Pesquisadores esperam que os resultados do estudo cheguem aos tomadores de decisão
 
Uma pesquisa inanãdita, realizada com 1.700 brasileiros, mostrou quais são os impactos da covid-19 em pessoas com diabetes. Os resultados foram publicados na revista Diabetes Research and Clinical Practice no dia 3 de julho.

Conduzido por um grupo de instituições nacionais e internacionais, incluindo a USP, o estudo revelou que os portadores da doença alteraram seus hábitos durante a quarentena, o que causou uma piora nos na­veis glicaªmicos. Se infectadas, essas pessoas podem desenvolver formas mais graves de covid-19.

Outro dado preocupante éque parte dos pacientes relatou dificuldades em receber os insumos necessa¡rios para controlar o metabolismo. Do total de 64% dos pacientes que obtem os produtos pelo Sistema ašnico de Saúde (SUS), apenas 21% deles receberam os medicamentos para 90 dias, conforme recomendação do Ministanãrio da Saúde.

O questiona¡rio, composto por 20 questões de maºltipla escolha, foi enviado por meio das redes sociais de associações e grupos de diabetes. De todos os participantes, 75% eram mulheres, 78% tinham entre 18 e 50 anos e 65% moravam na regia£o Sudeste. A maioria (60%) era portadora de diabetes tipo 1 e 31% do tipo 2. Além disso, 39% tinham acesso ao serviço privado de saúde e 33% deles utilizavam tanto o sistema paºblico quanto o privado.

Os dados foram coletados entre 22 de abril e 4 de maio de 2020.

Ferramenta matemática

Com todas as respostas em ma£os, coube a Viviana Giampaoli, professora do Instituto de Matema¡tica e Estata­stica (IME) da USP, construir um mapa de relações para estabelecer as associações entre idade, ocorraªncia dos sintomas da covid-19, tipos de diabetes e a evolução de algumas comorbidades, por exemplo. “Vimos que as pessoas com diabetes do tipo 2 controlam menos a glicemia e apresentaram maior frequência de outras doenças e complicadores, como problemas de saúde mental”, explica Viviana. “Va¡rios pacientes com diabetes tipo 1 apresentaram sintomas de covid-19 e não foram testados, mesmo convivendo com familiares infectados.”

Nos cuidados de rotina, éimportante manter uma alimentação sauda¡vel e a prática de exerca­cios, já que essas atividades ajudam a manter a glicemia em na­veis seguros. A maioria dos respondentes (95%) passou a ficar mais tempo em casa e diminuiu a atividade física. “Quase 60% das pessoas reportaram redução nos exerca­cios”, relata Mark Thomaz Ugliara Barone, vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes e primeiro autor do estudo. Dos 1.701 entrevistados, 38,4% adiaram suas consultas médicas e a realização de exames. Quase 49% deles aumentaram o tempo em frente a  TV e 53% acessaram mais a internet.

Dos 91% que monitoram a glicemia, a maioria (59%) percebeu um aumento ou maior variabilidade dos na­veis (31%) e apenas 8% diminuiram as taxas glicaªmicas. “Obviamente que esses fatores va£o ter um impacto importante sobre os autocuidados, por isso a população precisa ter um acesso otimizado ao serviço de saúde”, relata Barone. “No questiona¡rio, havia um campo de observação onde os pacientes escreveram relatos desesperados sobre a dificuldade de entrar em contato com os médicos pessoais”, enfatiza.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
A maioria dos entrevistados teve aumento da glicemia osFoto: Marcos Santos / USP
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Desde o ini­cio da pandemia, os servia§os de saúde de rotina foram reorganizados ou descontinuados. Outros profissionais foram redirecionados para trabalhar na linha do combate a  covid-19. “Com isso, a população precisa ser informada de como proceder e que alternativas possuem caso apresentem sintomas causados pelo novo coronava­rus”, afirma Barone.

Mais estudos

Uma pesquisa virtual, realizada pela Organização Pan-americana de Saúde (Opas) osorganismo internacional que atua como escrita³rio regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Amanãricas -, confirmou que a interrupção dos servia§os de rotina éuma ameaça a  saúde das pessoas portadoras das chamadas doenças crônicas não transmissa­veis (DCNTs), como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares. O estudo foi feito no maªs de maio com 158países.

A situação épreocupante porque pessoas com DCNTs tem mais riscos de ficarem doentes se forem infectadas pelo novo coronava­rus. Antes da pandemia, 81% de todas as mortes nas Amanãricas ocorriam em razãodessas doena§as. Estima-se que 62 milhões de pessoas vivam com diabetes na Amanãrica Latina e no Caribe. Já o Brasil tem 17 milhões com a doena§a.

Os coordenadores do trabalho esperam que os resultados cheguem, principalmente, aos tomadores de decisão, e que eles entendam que algo precisa ser feito. “Temos que garantir que essas pessoas recebam os medicamentos para 90 dias de tratamento”, diz Viviana.

Barone se diz preocupado porque os diabanãticos não estãorecebendo o acompanhamento necessa¡rio. “O cena¡rio mudou. Se antes eles se mantinham sauda¡veis, agora eles precisam se adaptar e receber orientações”, explica. “Nãobasta são ficar em casa!”

 

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