Com a pandemia, 95% dos participantes relataram ficar mais tempo em casa, mas a maioria reduziu a pra¡tica de exercacios fasicos

Pesquisadores esperam que os resultados do estudo cheguem aos tomadores de decisão
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Uma pesquisa inanãdita, realizada com 1.700 brasileiros, mostrou quais são os impactos da covid-19 em pessoas com diabetes. Os resultados foram publicados na revista Diabetes Research and Clinical Practice no dia 3 de julho.
Conduzido por um grupo de instituições nacionais e internacionais, incluindo a USP, o estudo revelou que os portadores da doença alteraram seus hábitos durante a quarentena, o que causou uma piora nos naveis glicaªmicos. Se infectadas, essas pessoas podem desenvolver formas mais graves de covid-19.
Outro dado preocupante éque parte dos pacientes relatou dificuldades em receber os insumos necessa¡rios para controlar o metabolismo. Do total de 64% dos pacientes que obtem os produtos pelo Sistema ašnico de Saúde (SUS), apenas 21% deles receberam os medicamentos para 90 dias, conforme recomendação do Ministanãrio da Saúde.
O questiona¡rio, composto por 20 questões de maºltipla escolha, foi enviado por meio das redes sociais de associações e grupos de diabetes. De todos os participantes, 75% eram mulheres, 78% tinham entre 18 e 50 anos e 65% moravam na regia£o Sudeste. A maioria (60%) era portadora de diabetes tipo 1 e 31% do tipo 2. Além disso, 39% tinham acesso ao serviço privado de saúde e 33% deles utilizavam tanto o sistema paºblico quanto o privado.
Os dados foram coletados entre 22 de abril e 4 de maio de 2020.
Ferramenta matemática
Com todas as respostas em ma£os, coube a Viviana Giampaoli, professora do Instituto de Matema¡tica e Estatastica (IME) da USP, construir um mapa de relações para estabelecer as associações entre idade, ocorraªncia dos sintomas da covid-19, tipos de diabetes e a evolução de algumas comorbidades, por exemplo. “Vimos que as pessoas com diabetes do tipo 2 controlam menos a glicemia e apresentaram maior frequência de outras doenças e complicadores, como problemas de saúde mentalâ€, explica Viviana. “Va¡rios pacientes com diabetes tipo 1 apresentaram sintomas de covid-19 e não foram testados, mesmo convivendo com familiares infectados.â€
Nos cuidados de rotina, éimportante manter uma alimentação sauda¡vel e a prática de exercacios, já que essas atividades ajudam a manter a glicemia em naveis seguros. A maioria dos respondentes (95%) passou a ficar mais tempo em casa e diminuiu a atividade física. “Quase 60% das pessoas reportaram redução nos exercaciosâ€, relata Mark Thomaz Ugliara Barone, vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes e primeiro autor do estudo. Dos 1.701 entrevistados, 38,4% adiaram suas consultas médicas e a realização de exames. Quase 49% deles aumentaram o tempo em frente a TV e 53% acessaram mais a internet.
Dos 91% que monitoram a glicemia, a maioria (59%) percebeu um aumento ou maior variabilidade dos naveis (31%) e apenas 8% diminuiram as taxas glicaªmicas. “Obviamente que esses fatores va£o ter um impacto importante sobre os autocuidados, por isso a população precisa ter um acesso otimizado ao serviço de saúdeâ€, relata Barone. “No questiona¡rio, havia um campo de observação onde os pacientes escreveram relatos desesperados sobre a dificuldade de entrar em contato com os médicos pessoaisâ€, enfatiza.
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
A maioria dos entrevistados teve aumento da glicemia osFoto: Marcos Santos / USP
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Desde o inicio da pandemia, os servia§os de saúde de rotina foram reorganizados ou descontinuados. Outros profissionais foram redirecionados para trabalhar na linha do combate a covid-19. “Com isso, a população precisa ser informada de como proceder e que alternativas possuem caso apresentem sintomas causados pelo novo coronavarusâ€, afirma Barone.
Mais estudos
Uma pesquisa virtual, realizada pela Organização Pan-americana de Saúde (Opas) osorganismo internacional que atua como escrita³rio regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Amanãricas -, confirmou que a interrupção dos servia§os de rotina éuma ameaça a saúde das pessoas portadoras das chamadas doenças crônicas não transmissaveis (DCNTs), como diabetes, câncer e doenças cardiovasculares. O estudo foi feito no maªs de maio com 158países.
A situação épreocupante porque pessoas com DCNTs tem mais riscos de ficarem doentes se forem infectadas pelo novo coronavarus. Antes da pandemia, 81% de todas as mortes nas Amanãricas ocorriam em razãodessas doena§as. Estima-se que 62 milhões de pessoas vivam com diabetes na Amanãrica Latina e no Caribe. Já o Brasil tem 17 milhões com a doena§a.
Os coordenadores do trabalho esperam que os resultados cheguem, principalmente, aos tomadores de decisão, e que eles entendam que algo precisa ser feito. “Temos que garantir que essas pessoas recebam os medicamentos para 90 dias de tratamentoâ€, diz Viviana.
Barone se diz preocupado porque os diabanãticos não estãorecebendo o acompanhamento necessa¡rio. “O cena¡rio mudou. Se antes eles se mantinham sauda¡veis, agora eles precisam se adaptar e receber orientaçõesâ€, explica. “Nãobasta são ficar em casa!â€