Talento

Cálculos matemáticos dão medalhas para alunos da USP em competição internacional
Estudantes dos cursos de matemática de São Paulo e de São Carlos participaram de provas on-line e concorreram com 550 participantes de 34 países
Por David Ferrari - 11/08/2020


Domínio público

Estudantes da USP foram premiados na International Mathematics Competition for University Students (IMC), competição internacional de matemática que reuniu entre os dias 25 e 30 de julho graduandos de 34 países, totalizando 550 participantes, divididos em 96 equipes. Participaram do evento sete alunos da Universidade divididos em duas equipes, uma representando o Instituto de Matemática e Estatística (IME) e outra o Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) de São Carlos. Destes, cinco conquistaram medalhas: duas de prata e três de bronze, além do terceiro melhor desempenho entre os times que representaram as instituições brasileiras.

No quadro geral por equipes, a 32ª colocação no quadro geral ficou com o IME. Já a equipe de São Carlos ficou na 78ª colocação, tendo sido prejudicada por possuir um participante a menos do mínimo exigido – os times devem ser compostos por ao menos quatro pessoas e a pontuação das equipes é obtida a partir da nota média dos integrantes. Nesse caso, a média foi feita a partir da soma dos três alunos e dividida por quatro, o que fez a nota diminuir. Também participaram equipes de outras universidades brasileiras como o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) que conseguiu a 15ª posição, melhor colocação brasileira na competição. A equipe vencedora foi a de Israel, sendo composta majoritariamente pelos estudantes da Universidade de Tel Aviv.

Na disputa individual, competiram pelo IME os estudantes Eduardo Sodré, André Hisatsuga, Lucas Harada e João Pedro Sedeu Godói, sendo que os dois primeiros conquistaram a medalha de prata pela 143ª e 151ª colocação, respectivamente. Lucas ficou na 209ª posição, enquanto João Pedro na 277ª, ambos premiados com a medalha de bronze. O time do ICMC foi composto pelos estudantes Luan Arjuna, Victor Hugo de Souza e Hazael Jumonji. Luan conquistou a medalha de bronze por ter alcançado a 277ª colocação, enquanto Victor Hugo recebeu menção honrosa pela 405ª posição; Hazael ficou na 436ª colocação. O melhor aluno brasileiro na competição foi Thiago Landim de Souza, da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), que conquistou a medalha de ouro pela 16ª posição. 

Estudantes resolvem exercícios da competição por meio de videoconferência
 Foto: Arquivo pessoal

Poucas mulheres e domínio russo

A International Mathematics Competition costuma acontecer na Bulgária mas, por conta da pandemia da covid-19, foi organizada neste ano no formato a distância. Apesar da divisão em times, a disputa foi individual e cada participante responderia oito problemas matemáticos numa prova que deveria ser impressa e resolvida na casa dos participantes. Eles foram fiscalizados através de videoconferência gravada por líderes, que poderiam ser professores, com microfones e câmeras abertos para a garantia da transparência da competição. Depois de preenchidas, as provas eram enviadas aos organizadores. Cada questão valia dez pontos, com a prova totalizando uma pontuação máxima de 80. Quem obteve nota igual ou superior a 30 pontos recebeu a medalha de ouro. Entre 29 de 21 pontos recebeu prata e entre 20 e 15 bronze.

Entre os 50 primeiros colocados, havia apenas uma mulher, a ucraniana Oleksandra Kozachok. Muitas das equipes, assim como as da USP, não tiveram representantes femininas. “Ter mais homens do que mulheres não é uma exclusividade dessa olimpíada. É um reflexo da maioria dos cursos de exatas, como a Engenharia. Apesar disso, tenho visto que ultimamente tem aumentado a presença feminina nas diversas competições de matemática”, afirma Marcelo Luiz Gonçalves, líder da equipe de São Carlos da USP. Dentre os 52 participantes brasileiros, somente três eram do sexo feminino: Ana Karoline Borges Carneiro e Julia Perdigão Saltiel, ambas do Instituto Militar de Engenharia, e Maria Clara de Lacerda Werneck, da PUC-Rio.

Os competidores russos conseguiram boa parte das primeiras colocações, seguidos dos estudantes israelenses, resultado que não é novidade em torneios da área. “Os dois países têm uma tradição muito forte em matemática, pois lá é bem mais popular que aqui”, destaca Gonçalves. Stanislav Krymskii, da Universidade Estatal de Saint-Petersburg, na Russia, foi o primeiro colocado da competição, seguido do israelense Shvo Regavim, da Universidade de Tel Aviv. A terceira colocação foi conquistada pelo também russo Mikhail Ivanov, da mesma universidade de Saint-Petersburg. Dentre os dez melhores ranqueados, sete são da Rússia ou Israel, além disso, as três equipes melhores classificadas também são desses países. Em primeiro lugar ficou a Universidade de Tel Aviv e em segundo e terceiro lugar ficaram as instituições russas Universidade Estatal de Saint Petersburg e Instituto de Física e Tecnologia de Moscou, respectivamente.

Conheça alguns medalhistas da International Mathematics Competition for University Students

Eduardo Sodré
Medalha de prata
Estudante do segundo ano do curso de Bacharelado em Matemática no IME, Eduardo Sodré tem 19 anos. Sua paixão por matemática foi influenciada pelas olimpíadas de conhecimento, competição que sempre gostou de participar. “Criei interesse em exatas através de um professor de matemática no sexto ano do ensino fundamental. Ele tinha uma maneira de inspirar e chamar os alunos para participar desses projetos. Isso me motivou bastante a estudar e conhecer mais matemática”, conta. Além de ter conquistado a medalha de prata na IMC, acumula premiações na Olimpíada Brasileira de Matemática e na Olimpíada Brasileira de Física. 

O estudante se preparou com discussões de problemas e resoluções de exercícios junto a colegas que participaram da mesma competição internacional, como Thiago Landim, melhor brasileiro na competição. Eduardo diz que não esperava o seu resultado. “Quando vi o quadro final das medalhas, fiquei bastante surpreso e feliz em ter conquistado a medalha de prata. Achei que minha pontuação não seria suficiente para isso”. Para ele, o resultado positivo faz com que fique ainda mais motivado a continuar estudando e participando de competições de matemática voltadas ao ensino superior.

André Hisatsuga
Medalha de prata
André tem 20 anos e é estudante do terceiro ano do Bacharelado em Matemática no IME. Desde o sexto ano do ensino fundamental participa de torneios de matemática. A partir de então, a matemática foi fazendo cada vez mais parte de sua vida. Na competição internacional, o objetivo era testar conhecimentos e conseguir resolver os exercícios que tivesse domínio do conteúdo. Após conquistar a medalha de prata, André gostou do seu desempenho. “Eu fiquei feliz com o que fiz, mas principalmente em ver vários colegas brasileiros, muitos ainda na primeira metade da graduação, indo bem”. Completa dizendo que a graduação o ajudou muito a obter esse resultado, principalmente em temas como álgebra e equações diferenciais.

 “É muito gostoso lembrar do quanto a gente já aprendeu e ver como as matérias da graduação nos permitem resolver problemas muito diversos, coisa que muitas vezes não sobra muito tempo nas disciplinas para apreciar”, conclui.

Luan Arjuna
Medalha de bronze
Com 19 anos, Luan Arjuna é estudante do Bacharelado em Matemática no ICMC, em São Carlos. Sua identificação com a área começou cedo. “Eu tinha uns 8 anos de idade quando minha mãe me falou sobre a OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). Ela disse que se eu ganhasse uma medalha de ouro nessa olimpíada, eu iria aparecer na televisão e receber a medalha do presidente. E isso foi suficiente para me deixar muito empolgado para estudar”, conta.

Logo em sua primeira participação, Luan recebeu menção honrosa e, no ano seguinte, conquistou a medalha de ouro e o convite para conhecer a então presidenta Dilma Rousseff. Depois disso, o estudante começou a se dedicar cada vez mais à matemática. “Quando você estuda muito algo, começa a desenvolver intimidade com ela”, destaca.  Luan estudou praticamente sua vida toda em escolas públicas de seu município, Andaraí, cidade baiana com cerca de 15 mil habitantes.  Sobre a competição internacional, ele considera o seu resultado surpreendente. “Essa medalha acendeu novamente a minha paixão pelas olimpíadas. Pretendo me dedicar bastante para conseguir uma nova medalha no ano que vem”.

Lucas Harada
Medalha de bronze
Estudante do segundo ano de Ciência da Computação no IME, Lucas Harada tem interesse por matemática desde os 13 anos ao participar das olimpíadas de conhecimento da área. Apesar de seu curso não ser tão voltado aos cálculos, o estudante ainda se identifica com os números.  A participação na competição internacional para Lucas foi um desafio, pois o principal foco do aluno é para competições de programação, como a Maratona de Programação, organizada pela Sociedade Brasileira de Computação. “Participo dessas competições mais por diversão, pois eu gosto de desafios e da sensação de estar evoluindo, aprendendo cada vez mais”. Embora não tenha focado tanto no evento, Lucas conquistou a medalha de bronze. “A premiação me deixa mais motivado para continuar estudando firme para os torneios”, destaca.

 

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