Tecnologia Científica

Força que rejuvenesce: estímulos mecânicos podem reverter o envelhecimento dos ossos
Estudo internacional aponta redução de até 40% em marcadores de envelhecimento celular e melhora da densidade óssea em modelos idosos.
Por Laercio Damasceno - 15/01/2026




O envelhecimento dos ossos, um processo silencioso que afeta milhões de pessoas no mundo, pode estar mais ligado à perda de força celular do que se imaginava. Uma pesquisa publicada na revista Nature Communications revela que estímulos mecânicos controlados, como vibrações leves e alongamentos celulares, são capazes de rejuvenescer células-tronco envelhecidas e restaurar a saúde óssea.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 3 mulheres e 1 em cada 5 homens acima dos 50 anos sofrerão fraturas osteoporóticas ao longo da vida. O novo estudo traz esperança ao indicar um caminho alternativo aos medicamentos tradicionais.

Células mais fracas, ossos mais frágeis

Os pesquisadores analisaram células-tronco da medula óssea de 38 doadores humanos, com idades entre 18 e 80 anos. Os resultados mostraram que células de idosos apresentaram uma redução de até 46% na força de tração celular, além de queda significativa na capacidade de regeneração óssea.

“O envelhecimento não afeta apenas os ossos visíveis, mas começa em nível microscópico, com células que literalmente perdem força”, explica Li Liao, um dos autores do estudo.

Além disso, células envelhecidas apresentaram:

Aumento de 2 vezes nos marcadores de senescência celular;
Queda de 40% na rigidez celular, essencial para a regeneração dos tecidos;
Redução significativa da atividade do gene FOXO1, associado à longevidade

Quando o movimento vira remédio

Em experimentos com camundongos idosos, os cientistas aplicaram vibração mecânica leve por 20 minutos ao dia, durante 30 dias. O resultado foi expressivo: aumento de até 30% na densidade do osso trabecular, redução de 35% nos marcadores inflamatórios, como IL-6 e IL-1B; melhora no desempenho físico, incluindo força muscular e resistência.

“Observamos uma reversão parcial do envelhecimento ósseo sem o uso de drogas”, afirma Qiang Wei, pesquisador responsável. “O segredo está na intensidade correta do estímulo.”


O estudo também alerta: excesso de estímulo mecânico pode acelerar o envelhecimento celular. Quando os testes usaram vibração contínua ou força excessiva, houve aumento de danos ao DNA em até 50%.

“A força é uma faca de dois gumes. Em doses corretas, rejuvenesce; em excesso, causa danos”, destaca Wei.

Impacto além dos ossos

Os efeitos positivos não se limitaram ao esqueleto. Os animais submetidos ao estímulo adequado apresentaram: melhora cognitiva em testes de memória; redução da inflamação no fígado e nos rins; diminuição da fragilidade física geral.

Diferente de terapias genéticas ou medicamentos de alto custo, os autores ressaltam que intervenções mecânicas são simples, baratas e potencialmente aplicáveis em clínicas e programas de reabilitação.

“Estamos falando de uma estratégia que pode ser incorporada à fisioterapia, à prevenção do envelhecimento e até à medicina preventiva”, conclui Li Liao.

Com o envelhecimento acelerado da população mundial — estima-se que até 2050 mais de 2 bilhões de pessoas terão mais de 60 anos — descobertas como essa podem redefinir a forma como a ciência encara o envelhecer.


Mais informação: Liu, X., Ye, Y., Li, Z. et al. Rejuvenescimento mecânico de células-tronco senescentes e osso envelhecido via remodelação da cromatina. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68387-3

 

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