Nova técnica usa membranas de células tumorais para detectar câncer de mama com alta precisão
O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre mulheres no mundo, respondendo por cerca de 11,6% de todos os casos globais, segundo estimativas internacionais. Além de frequente, a doença é altamente heterogênea, apresentando subtipos...

Um novo método desenvolvido por pesquisadores chineses promete revolucionar o diagnóstico do câncer de mama por meio de exames de sangue. Publicado na revista Nature Communications, o estudo apresenta uma tecnologia capaz de identificar, com alta sensibilidade, subtipos específicos da doença a partir da análise de vesículas extracelulares — partículas microscópicas liberadas pelas células tumorais na corrente sanguínea.
O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre mulheres no mundo, respondendo por cerca de 11,6% de todos os casos globais, segundo estimativas internacionais. Além de frequente, a doença é altamente heterogênea, apresentando subtipos biológicos distintos — como os tumores positivos para receptor de estrogênio (ER+), HER2-positivos e o agressivo triplo-negativo — que exigem tratamentos específicos.
Diagnóstico pelo sangue
O trabalho liderado por Zihan Zou, Xi Jin e Jing Zhao, de instituições como a Universidade de Xangai e o Centro de Câncer da Universidade Fudan, propõe uma abordagem inovadora de biópsia líquida. Em vez de analisar diretamente o tecido tumoral, os pesquisadores desenvolveram uma plataforma que reconhece vesículas extracelulares (EVs), estruturas que carregam proteínas e informações moleculares da célula de origem.
A inovação está no uso de membranas de células cancerígenas reais para revestir sensores de ouro. Essas membranas preservam proteínas típicas do tumor e funcionam como uma espécie de “imã biológico”, capaz de capturar apenas vesículas provenientes de tumores do mesmo subtipo — um fenômeno conhecido como ligação homotípica.
“Essas membranas mimetizam fielmente as células tumorais e mantêm sua capacidade natural de reconhecimento”, explicam os autores da pesquisa.
Alta sensibilidade e precisão
Após a captura das vesículas, os pesquisadores utilizam nanopartículas de prata ligadas a anticorpos contra a proteína CD47, abundante na superfície das EVs tumorais. Esse processo gera sinais eletroquímicos mensuráveis, permitindo a quantificação precisa das vesículas.
Nos testes laboratoriais, a técnica apresentou um limite de detecção de apenas 239 partículas por mililitro, valor significativamente inferior ao de métodos tradicionais, como ELISA ou análise por rastreamento de nanopartículas (NTA), que falham em concentrações abaixo de 100 mil partículas por mililitro.
A resposta eletroquímica mostrou uma relação linear em uma faixa ampla de concentrações, de 10² a 10 vesículas por mililitro, com coeficiente de correlação de 0,99 — um indicativo de alta confiabilidade estatística.
Resultados clínicos promissores
A equipe testou a tecnologia em amostras de plasma de 90 pacientes com câncer de mama, além de controles saudáveis e pacientes com outras doenças. O método conseguiu diferenciar com precisão pacientes com tumores ER+, HER2+ e triplo-negativos.
Na análise estatística, o desempenho diagnóstico foi considerado excelente: a área sob a curva ROC (AUC) atingiu 1,0, o valor máximo possível, equiparando-se à imunohistoquímica convencional e superando-a na capacidade de monitorar a progressão da doença.
“O método não apenas identifica o câncer, mas também revela suas características moleculares, o que é fundamental para a medicina personalizada”, afirmam os autores.
Microchips e futuro da oncologia
O estudo também apresentou um dispositivo microfluídico com múltiplos canais, cada um revestido com membranas de diferentes subtipos tumorais. Esse chip permite analisar uma única amostra de sangue e identificar, em paralelo, o subtipo do câncer — uma abordagem inédita em diagnósticos líquidos.
Para os pesquisadores, a tecnologia pode ser adaptada para outros tipos de câncer, como o de pulmão, e integrada a sistemas automatizados e inteligência artificial.
“Nosso objetivo é oferecer uma ferramenta prática, precisa e minimamente invasiva para apoiar decisões clínicas”, concluem os autores.
Mais sobre o artigo
Zou, Z., Jin, X., Yu, X. et al. Análise microfluídica eletroquímica homotípica de vesículas extracelulares alimentadas por membrana para diagnóstico preciso de câncer. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-68770-0