Estudo internacional mostra que adição de nanopartículas orgânicas e minerais reduz desgaste e amplia a vida útil de dentaduras, hoje usadas por milhões de pessoas

Imagem ilustrativa
Um material desenvolvido em laboratório pode mudar a rotina de milhões de usuários de próteses dentárias no mundo. Um estudo publicado nesta quinta-feira (29), na revista Scientific Reports, revela que a incorporação de nanopartículas híbridas — combinando hidroxiapatita, principal mineral dos ossos e dentes humanos, e partículas orgânicas extraídas de sementes de tâmaras — torna as bases de próteses dentárias significativamente mais resistentes ao desgaste e à fratura.
A pesquisa foi conduzida por cientistas das universidades de Fayoum e Minia, no Egito, e se debruça sobre um velho conhecido da odontologia: o poli(metil metacrilato), ou PMMA. Utilizado há mais de 70 anos na fabricação de dentaduras por ser barato, estético e biocompatível, o material apresenta limitações importantes, como baixa resistência ao desgaste e tendência a fraturas com o uso prolongado.
“O PMMA é confiável, mas não é eterno”, afirma a engenheira mecânica Howida Mohamed, da Universidade de Fayoum, autora principal do estudo. “Nossa proposta foi melhorar suas propriedades sem torná-lo mais caro ou menos acessível”, diz a pesquisadora.
Os resultados chamam atenção. Segundo o estudo, a adição de apenas 0,6% em peso do reforço híbrido ao PMMA resultou em uma redução de 37,39% na taxa de desgaste, uma queda de 30,99% no coeficiente de atrito e um aumento de 31,92% na resistência à compressão — indicador-chave para suportar forças da mastigação. A dureza superficial, essencial para evitar riscos e abrasão, cresceu quase 10%.
Os testes foram realizados em condições que simulam o uso cotidiano, incluindo atrito contra superfícies metálicas, acrílicas e abrasivas. Em todos os cenários, o novo compósito apresentou desempenho superior ao do PMMA convencional.
Para Abdallah Shokry, coautor do trabalho e professor da Universidade de Fayoum, o avanço está na combinação dos materiais. “A hidroxiapatita garante compatibilidade biológica e resistência mecânica, enquanto as nanopartículas orgânicas das sementes de tâmara atuam como reforço sustentável e de baixo custo”, explica.
Um problema global de saúde pública
O impacto potencial vai além do laboratório. A perda total ou parcial dos dentes — conhecida como edentulismo — afeta centenas de milhões de pessoas, especialmente idosos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, a condição compromete a mastigação, a fala, a estética facial e a qualidade de vida, além de aumentar o risco de desnutrição.
No Brasil, o problema é histórico. Levantamentos do Ministério da Saúde indicam que, apesar dos avanços na odontologia preventiva, uma parcela significativa da população acima dos 60 anos ainda depende de próteses totais ou parciais. A durabilidade limitada desses dispositivos implica custos recorrentes para o sistema público e para os próprios pacientes.
“Se conseguirmos estender a vida útil das próteses, reduzimos gastos, consultas e desconforto para o usuário”
Ameer Ali Kamel, pesquisador da Universidade de Minia e coautor do estudo
Além do desempenho mecânico, o estudo aposta na sustentabilidade. As sementes de tâmara, geralmente descartadas como resíduo agrícola, são transformadas em nanopartículas orgânicas após processamento mecânico. “É um exemplo de economia circular aplicada à saúde”, diz Mohamed.
Os autores ressaltam que os resultados ainda se baseiam em testes laboratoriais (in vitro). Avaliações biológicas mais amplas e estudos clínicos serão necessários antes de qualquer aplicação comercial. Ainda assim, especialistas veem o trabalho como um passo importante na evolução dos materiais odontológicos.
Num cenário de envelhecimento populacional acelerado, soluções que aliem durabilidade, baixo custo e sustentabilidade tendem a ganhar espaço. Para milhões de pessoas que dependem de uma dentadura para sorrir, falar e se alimentar, a nanotecnologia pode representar mais do que inovação — pode significar dignidade no dia a dia.
Mais sobre o artigo
Mohamed, H., Ali, WY, Shokry, A. et al. Aprimoramento tribomecânico sinérgico da base de prótese de poli(metacrilato de metila) curada a quente por meio de nanopartículas híbridas orgânicas e inorgânicas sintetizadas in situ. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-025-33026-2