Tecnologia Científica

Casca de beterraba vira arma contra bactérias, poluição e câncer em estudo com nanotecnologia verde
A pesquisa descreve pela primeira vez a produção de nanopartículas de zinco com formato estrelado a partir do extrato da casca da Beta vulgaris — a beterraba comum.
Por Laercio Damasceno - 10/02/2026




Por décadas tratada como resíduo sem valor, a casca da beterraba pode ganhar um novo destino longe do lixo. Um estudo publicado neste início de 2026 na Scientific Reports mostra que o subproduto agrícola foi usado com sucesso para sintetizar nanopartículas de zinco em um processo ambientalmente sustentável, com resultados expressivos contra bactérias resistentes, poluentes industriais e células tumorais.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Ciências Médicas de Mashhad, no Irã, descreve pela primeira vez a produção de nanopartículas de zinco com formato estrelado a partir do extrato da casca da Beta vulgaris — a beterraba comum. O método dispensa solventes tóxicos e altas temperaturas, recorrendo apenas aos compostos naturais presentes no vegetal, como betalainas e polifenóis, para reduzir e estabilizar o metal.

“Transformamos um resíduo abundante da indústria alimentícia em um material funcional de alto valor tecnológico”, afirma o químico Majid Darroudi, coordenador do estudo, em nota da instituição. “É um exemplo claro de como a nanotecnologia pode caminhar junto com a economia circular.”

Da história do zinco à nanotecnologia verde

O uso do zinco acompanha a humanidade há milênios, da metalurgia antiga à medicina moderna. Essencial ao organismo humano — participa da atividade de mais de 300 enzimas —, o elemento também ganhou destaque na ciência dos materiais por sua estabilidade, baixo custo e propriedades antimicrobianas.

Nas últimas duas décadas, a chamada “síntese verde” de nanopartículas vem crescendo como resposta aos impactos ambientais dos métodos químicos tradicionais, que geram resíduos tóxicos. Extratos vegetais passaram a substituir reagentes industriais, mas a maior parte dos estudos ainda se concentra em folhas, flores ou sementes. O trabalho agora amplia esse horizonte ao explorar um rejeito agroindustrial.

Resultados expressivos em laboratório

As nanopartículas obtidas têm cerca de 21 nanômetros e exibem uma morfologia estrelada, que aumenta a área de contato com microrganismos e contaminantes. Em testes de laboratório, o material degradou até 98% de corantes tóxicos amplamente usados na indústria têxtil — como azul de metileno e rodamina B — sob luz ultravioleta, em menos de três horas.


As nanopartículas -  Imagem: LMU

No campo da saúde, os resultados também chamam atenção. Em ensaios in vitro, as nanopartículas inibiram o crescimento de bactérias gram-positivas e gram-negativas, incluindo Staphylococcus aureus e Escherichia coli, com zonas de inibição comparáveis às de antibióticos convencionais. Segundo os autores, o efeito está ligado à geração de espécies reativas de oxigênio e à liberação controlada de íons zinco.

Já nos testes com células humanas, o material mostrou seletividade: foi tóxico para células de câncer de mama (MCF-7), com dose inibitória média de 284 microgramas por mililitro, mas não apresentou efeitos relevantes sobre células normais de fibroblastos no mesmo intervalo de concentração.

“Esse perfil é particularmente promissor”, diz Faeghe Sadat Mousavi Khatat, autora sênior do estudo. “Indica potencial para aplicações biomédicas, desde que estudos in vivo confirmem a segurança observada em laboratório.”

Especialistas veem no trabalho um exemplo de convergência entre sustentabilidade, saúde pública e inovação industrial. A indústria têxtil está entre as maiores fontes de poluição hídrica no mundo, enquanto a resistência bacteriana é apontada pela OMS como uma das principais ameaças globais à saúde.

“O uso de resíduos vegetais para gerar materiais antimicrobianos e descontaminantes é uma estratégia duplamente vantajosa”, avalia a universidade iraniana em comunicado. “Reduz o impacto ambiental e cria soluções de baixo custo para países em desenvolvimento.”


Próximos passos

Os próprios autores adotam cautela. Antes de qualquer aplicação comercial ou clínica, serão necessários testes em organismos vivos, estudos de toxicidade de longo prazo e avaliações de escala industrial. Ainda assim, o trabalho reforça uma tendência crescente na ciência: transformar aquilo que sobra em matéria-prima para enfrentar desafios globais.

Se depender da casca da beterraba, o futuro da nanotecnologia pode ser menos tóxico — e muito mais verde.


Referência
Mousavi Khatat, FS, Sabouri, Z. & Darroudi, M. Síntese ecologicamente correta de nanopartículas de Zn em forma de estrela usando extrato da casca de Beta vulgaris e avaliação de suas atividades antibacteriana, fotocatalítica e citotóxica. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-38842-8

 

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