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Vidro formado por impacto fornece evidências de colisão cósmica no Brasil há cerca de 6 milhões de anos
Até agora, apenas cinco grandes campos de tectitos haviam sido reconhecidos no planeta: na Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize. O campo brasileiro agora se junta a esse seleto grupo.
Por José Tadeu Arantes, FAPESP - 20/02/2026


Alguns exemplos de “geraisitos”, nomeados em homenagem ao estado de Minas Gerais onde foram encontrados, em suas diferentes formas. Crédito: Álvaro Penteado Crósta/IG-UNICAMP


Pela primeira vez no Brasil, pesquisadores identificaram um campo de tectitos. Trata-se de vidros naturais formados pelo impacto de alta energia de corpos extraterrestres contra a superfície da Terra. Essas estruturas, denominadas geraisitas em homenagem ao estado brasileiro de Minas Gerais, onde foram descobertas inicialmente, constituem um novo campo de dispersão. Isso amplia o registro incompleto de impactos na América do Sul.

A descoberta foi descrita em um artigo publicado na revista Geology por uma equipe liderada por Álvaro Penteado Crósta, geólogo e professor titular do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-UNICAMP). Crósta colaborou com pesquisadores do Brasil, Europa, Oriente Médio e Austrália.

Até agora, apenas cinco grandes campos de tectitos haviam sido reconhecidos no planeta: na Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize. O campo brasileiro agora se junta a esse seleto grupo.

Onde se encontram os paroitas no Brasil

Os geralitas foram inicialmente localizados em três municípios do norte de Minas Gerais — Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso — em uma faixa de aproximadamente 90 quilômetros de extensão. Desde a submissão do artigo, novas ocorrências foram registradas nos estados brasileiros da Bahia e, mais recentemente, do Piauí. Segundo Crósta, isso amplia a área conhecida para mais de 900 quilômetros de extensão.

"Esse crescimento na área de ocorrência é totalmente consistente com o que se observa em outros campos de tectitos ao redor do mundo. O tamanho do campo depende diretamente da energia do impacto, entre outros fatores", explica o pesquisador.

Em julho de 2025, os autores haviam coletado aproximadamente 500 espécimes, número que desde então cresceu para mais de 600 com as descobertas mais recentes. Os fragmentos variam em tamanho de menos de 1 grama a 85,4 gramas e atingem cerca de 5 centímetros no eixo mais longo. Suas formas são típicas de tectitos aerodinâmicos: esféricos, elipsoidais, em forma de gota, discoides, em forma de haltere ou torcidos.

Embora inicialmente pareçam pretas e opacas, tornam-se translúcidas sob luz intensa, exibindo uma coloração verde-acinzentada. Essa cor é distinta da das moldavitas europeias, utilizadas em joalheria desde a Idade Média devido à sua característica cor verde intensa. Suas superfícies escuras são marcadas por inúmeras pequenas cavidades.

"Essas pequenas cavidades são vestígios de bolhas de gás que escaparam durante o rápido resfriamento do material fundido enquanto ele viajava pela atmosfera, um processo também observado em lava vulcânica, mas especialmente característico de tectitos", diz Crósta.


Impressão digital geoquímica de cupitos

Análises geoquímicas mostram que as geraisitas apresentam alto teor de sílica (SiO2), variando de 70,3% a 73,7%. O teor combinado de óxidos de sódio (Na2O) e potássio (K2O) varia de 5,86% a 8,01%, ligeiramente superior ao encontrado em outros campos de tectitos. Pequenas variações em elementos-traço, como cromo (10–48 partes por milhão) e níquel (9–63 ppm), foram identificadas, indicando que o material original não era puro nem homogêneo. A presença de raras inclusões de lechatelierita, uma forma de sílica vítrea produzida em temperaturas extremas, reforça a hipótese de uma origem por impacto.

"Um dos critérios decisivos para classificar o material como tectito foi seu baixíssimo teor de água, medido por espectroscopia infravermelha: entre 71 e 107 ppm. Para comparação, vidros vulcânicos, como a obsidiana, geralmente contêm de 700 ppm a 2% de água, enquanto os tectitos são notoriamente muito mais secos", destaca Crósta.

A datação baseada na razão de isótopos de argônio (40Ar/39Ar) indica que o evento ocorreu há aproximadamente 6,3 milhões de anos, no final do Mioceno. Três grupos de idades muito semelhantes foram obtidos (6,78 ± 0,02 Ma, 6,40 ± 0,02 Ma e 6,33 ± 0,02 Ma), o que é consistente com um único evento de impacto.

"A idade de 6,3 milhões de anos deve ser interpretada como uma idade máxima, já que parte do argônio pode ter sido herdada das rochas antigas atingidas pelo impacto", comenta o pesquisador.

Em busca da cratera desaparecida

Até o momento, nenhuma cratera associada foi identificada. Segundo Crósta, isso não é incomum; apenas três dos seis grandes campos de tectitos clássicos possuem crateras conhecidas. No caso do maior campo, localizado na Australásia, acredita-se que a cratera seja oceânica. No Brasil, a geoquímica isotópica indica que o material fundido se originou na crosta continental arqueana, entre 3,0 e 3,3 bilhões de anos atrás. Isso direciona a busca para o cráton de São Francisco, uma porção antiga e geologicamente estável da crosta continental e uma das regiões mais antigas do continente sul-americano.

"A assinatura isotópica indica uma rocha-fonte granítica continental muito antiga. Isso reduz consideravelmente o universo de áreas candidatas", afirma Crósta. No futuro, métodos aerogeofísicos, como levantamentos magnéticos e gravimétricos, poderão revelar anomalias circulares associadas a uma cratera enterrada ou erodida.

Modelando o impacto e sua escala

Embora ainda não seja possível estimar com precisão o tamanho do corpo impactante, os pesquisadores consideram improvável que fosse pequeno. A grande quantidade de material fundido e a ampla área de dispersão indicam um evento de impacto significativo, ainda que menor do que o evento responsável pelo campo da Australásia, que se estende por milhares de quilômetros.

A equipe está trabalhando atualmente em um modelo matemático de impactos para estimar parâmetros como a energia liberada, a velocidade, o ângulo de entrada e o volume de rocha fundida. Eles estão fazendo isso à medida que novos dados sobre a distribuição espacial das geraisitas se tornam disponíveis.
A descoberta das geraisitas preenche uma lacuna importante no registro de impactos na América do Sul. Apenas cerca de nove grandes estruturas de impacto são conhecidas na região, e quase todas são muito mais antigas e localizadas no Brasil. Essa descoberta também reforça a ideia de que os tectitos podem ser mais comuns do que se pensava anteriormente, mas muitas vezes passam despercebidos ou são confundidos com vidro comum.

Para combater interpretações sensacionalistas de impactos cósmicos, Crósta administra o perfil do Instagram @defesaplanetaria com alunos de graduação. O perfil é dedicado à divulgação científica e à diferenciação entre riscos reais e especulações irresponsáveis ??sobre meteoritos e asteroides. Os impactos eram frequentes durante a formação do sistema solar, quando uma grande quantidade de detritos estava espalhada e as órbitas planetárias eram indefinidas. Grandes corpos migravam de uma posição para outra, projetando corpos menores em várias direções. No entanto, hoje, com o sistema estabilizado, os impactos são incomparavelmente menos frequentes.

"Compreender esses processos é essencial para separar a ciência da especulação", conclui o pesquisador.


Detalhes da publicação
Álvaro P. Crósta et al, Geraisite: A primeira ocorrência de tectito no Brasil, Geology (2025). DOI: 10.1130/g53805.1

Informações do periódico: Geologia 

 

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