Tecnologia Científica

Novo software prepara era Rubin para o maior teste já feito em redshifts fotométricos
Ferramenta aberta desenvolvida por colaboração internacional promete padronizar, estressar e escalar estimativas de distância de 20 bilhões de galáxias
Por Laercio Damasceno - 23/02/2026


A câmera LSST instalada no Telescópio de Levantamento Simonyi no Observatório Vera C. Rubin da NSF-DOE em março de 2025. Crédito: RubinObs/NOIRLab/SLAC/NSF/DOE/AURA/B. Quint


Por décadas, medir a distância de uma galáxia exigiu dissecar sua luz em espectros detalhados, identificando linhas de emissão e absorção que revelam seu redshift — o desvio para o vermelho causado pela expansão do Universo. Mas quando o Vera C. Rubin Observatory iniciar plenamente o levantamento LSST (Legacy Survey of Space and Time), ele produzirá imagens profundas de cerca de 20 bilhões de galáxias. Para a imensa maioria delas, não haverá tempo de telescópio suficiente para espectroscopia.

A solução será estatística: redshifts fotométricos, estimados a partir do brilho das galáxias em seis filtros (ugrizy). Agora, um consórcio internacional apresenta a primeira versão pública de uma infraestrutura desenhada para colocar esses cálculos sob escrutínio rigoroso e em escala industrial. O sistema, batizado de Redshift Assessment Infrastructure Layers (RAIL), é descrito em pré-publicação assinada pela equipe da LSST Dark Energy Science Collaboration.

“Praticamente todos os casos de uso extragalácticos do Rubin exigem alguma informação de redshift”, escrevem os autores no resumo. “Mas a vasta maioria da amostra dependerá de redshifts fotométricos sujeitos a imprecisão e viés sistemático.”

O RAIL surge como resposta a esse desafio.

Um laboratório para testar o Universo

O Rubin mapeará cerca de 18 mil graus quadrados do céu ao longo de dez anos, alcançando magnitude i=26,4. Esse volume sem precedentes permitirá avanços em lentes gravitacionais, estrutura em larga escala, supernovas do tipo Ia e energia escura — mas apenas se as distâncias das galáxias forem bem compreendidas.

Redshifts fotométricos não são números únicos, mas distribuições de probabilidade. Em vez de dizer que uma galáxia está a z=0,8, por exemplo, o método ideal fornece uma função densidade de probabilidade (PDF) que expressa a incerteza completa.

O Observatório Vera C. Rubin, financiado conjuntamente pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF) e pelo Departamento de Energia dos EUA (DOE), é uma nova instalação de astronomia e astrofísica localizada em Cerro Pachón, no Chile

Segundo o artigo, experimentos anteriores conduzidos pela colaboração revelaram problemas preocupantes: diferentes algoritmos, alimentados com os mesmos dados simulados, produziam PDFs distintas; métricas tradicionais podiam favorecer estimadores “patológicos”; e faltava infraestrutura robusta para comparar métodos sob condições realistas.

“O experimento não apontou um vencedor claro, mas evidenciou prioridades inesperadas”, relatam os autores. A lição central: era preciso um ambiente modular capaz de simular, estimar e avaliar redshifts de forma padronizada.

Três camadas: criar, estimar, avaliar

O RAIL foi estruturado em três blocos principais:

1. Criação (Creation) – Gera catálogos simulados com propriedades físicas realistas e PDFs verdadeiras conhecidas. Inclui motores físicos, como FSPS e DSPS, e modelos empíricos baseados em fluxos normalizantes (PZFlow).
2. Estimativa (Estimation) – Integra uma ampla gama de algoritmos — de métodos clássicos de ajuste de templates a abordagens de aprendizado de máquina como redes neurais, random forests e nearest neighbors — sob uma API comum.
3. Avaliação (Evaluation) – Implementa métricas matemáticas e específicas para casos científicos, permitindo comparar desempenho de forma consistente.

A arquitetura é baseada no sistema de pipelines ceci, desenvolvido pela própria colaboração, garantindo rastreabilidade e execução paralela em larga escala.

“O RAIL serve como um kit de ferramentas flexível para derivar e otimizar produtos de dados de photo-z em escala”, afirmam os autores, ressaltando que o software não é específico ao Rubin e pode ser aplicado a outros levantamentos fotométricos.

Teste de estresse antes do dilúvio de dados

Um dos diferenciais do RAIL é permitir “forward modeling” probabilístico completo: simulações em que se conhece a distribuição verdadeira de redshifts condicionada à fotometria. Isso viabiliza comparações PDF-a-PDF — algo impossível com dados observacionais reais, onde apenas redshifts espectroscópicos pontuais estão disponíveis.

Além disso, módulos de “degradação” introduzem imperfeições realistas: ruído fotométrico, condições variáveis de observação, seleção espectroscópica enviesada e até efeitos de blending, quando múltiplas galáxias aparecem como uma só fonte.

'Desvio para o vermelho', ou Redshift ou Redshifting em inglês. Galáxias muito distantes possuem velocidade e distância relativas estimadas a partir desse desvio.  Imagem de internet

Para a colaboração, essa capacidade é crucial antes da avalanche de dados que o Rubin produzirá. “Para realizar testes sistemáticos em escala sob condições não ideais, precisamos de uma infraestrutura robusta e modular”, escrevem.

Impacto além do Rubin

Embora concebido para atender às exigências rigorosas de cosmologia de precisão — incluindo metas de energia escura — o RAIL foi desenvolvido como projeto aberto no GitHub, com integração contínua e documentação voltada a diferentes perfis de usuários: desde especialistas em photo-z até estudantes iniciantes.

A expectativa é que o software seja usado também durante a fase de comissionamento do observatório e por outras colaborações científicas do ecossistema Rubin.

Se o século XX foi marcado pela espectroscopia como régua cósmica, o século XXI poderá depender cada vez mais de métodos probabilísticos e aprendizado de máquina para medir o Universo em escala. Com o RAIL, a comunidade tenta garantir que, quando o Rubin abrir as comportas de dados, as ferramentas estatísticas estejam à altura da ambição científica.


Referência
Camadas de Infraestrutura de Avaliação do Desvio para o Vermelho (RAIL): Testes de estresse fotométrico do desvio para o vermelho na era Rubin e produção em larga escala. A Equipe RAIL Jan Luca van den Busch, Eric Charles, Johann Cohen-Tanugi, Alice Crafford, John Franklin Crenshaw, Sylvie Dagoret, Josué de Santiago, Juan De Vicente Pendurar Qianjun, Benjamin Joachimi, Shahab JoudakiJ, Bryce Kalmbach, Arun Kannawadi, Shuang Liang, Olivia Lynn, Alex I. Malz, Rachel Mandelbaum, Sidney Mau, Leonel Medina-Varela, Grant MerzIrene Moskowitz, Drew Oldag, Jaime Ruiz-Zapatero, Mubdi Rahman, Markus M. Rau, Samuel J. Schmidt, Jennifer Scara, Rafael Shirley, Benjamin Stölzner, Laura Toribio San Cipriano, Luca Tortorelli, Ziang Yan, Tianqing Zhang. Colaboração Científica em Energia Escura. https://doi.org/10.33232/001c.158200

 

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