Códigos 'pró-carro elétrico' aceleram adoção de veículos e podem virar arma climática nos EUA
Estudo da Universidade de Maryland mostra que exigência de infraestrutura para recarga em novas construções elevou em até 31% a compra de carros elétricos em condado americano; impacto, porém, favorece bairros ricos e casas unifamiliares

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Por trás da expansão dos carros elétricos nos Estados Unidos, uma mudança silenciosa vem acontecendo longe das concessionárias e montadoras: nos códigos de obras. Um estudo inédito publicado nestas quinta-feira (7), na revista científica Nature Communications, concluiu que leis municipais que obrigam novas construções a saírem preparadas para carregamento elétrico aumentam significativamente a adoção de veículos elétricos — e podem se tornar uma das ferramentas mais baratas e eficientes da transição energética.
A pesquisa foi conduzida pelos cientistas Jiehong Lou e Deb A. Niemeier, da University of Maryland, e analisou mais de 75 mil registros de veículos elétricos no estado de Maryland entre 1999 e 2024.
O foco do estudo foi o condado de Howard, um dos primeiros dos EUA a aprovar, em 2019, regras exigindo que novas casas fossem entregues com infraestrutura pronta para carregadores de veículos elétricos — os chamados códigos “EV-ready”.
O resultado impressionou os pesquisadores: a política elevou em média 0,25 veículo elétrico por quarteirão ao ano, o equivalente a um crescimento de 28% em relação ao período anterior à lei. Em alguns cálculos do estudo, o efeito chega a representar 31% do aumento total de adoção de carros elétricos na região entre 2019 e 2023.
“Os códigos EV-ready se mostraram uma ferramenta efetiva e de baixo custo para acelerar a adoção de veículos elétricos”, escrevem os autores.
A lógica é simples: preparar uma casa para carregamento durante a construção custa muito menos do que adaptar a instalação elétrica depois. Segundo a pesquisa, instalar a infraestrutura na fase inicial pode ser entre 64% e 75% mais barato do que fazer retrofit em imóveis já prontos. Em alguns casos, adaptar depois chega a custar oito vezes mais.
Hoje, cerca de 80% dos proprietários de carros elétricos carregam seus veículos em casa. Isso faz da infraestrutura residencial um fator decisivo para a compra do automóvel.
“O acesso ao carregamento doméstico é um dos principais determinantes da intenção de compra de veículos elétricos”, afirmam os pesquisadores.
Pressão climática e metas de descarbonização
O estudo surge em um momento crítico da política climática americana. O setor de transportes responde atualmente por 29% das emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos, tornando-se o maior emissor do país, à frente até do setor elétrico.
Desde o Acordo de Paris, governos estaduais e municipais vêm buscando maneiras de acelerar a eletrificação da frota. A meta oficial dos EUA é que 50% dos carros novos vendidos em 2030 sejam elétricos.
Nesse contexto, os códigos de construção passaram a ser vistos como instrumento estratégico. Em vez de depender apenas de subsídios federais ou incentivos fiscais, cidades começaram a incorporar exigências de infraestrutura elétrica diretamente na legislação urbana.
Segundo o levantamento, até maio de 2024, oito estados americanos, seis condados e 36 cidades já haviam adotado normas semelhantes. Entre os exemplos citados estão New York City, San Francisco, Denver e Vancouver.
Em Howard County, a legislação exige que todas as novas casas com garagem ou vaga tenham estrutura elétrica pronta para carregadores de nível 2 — padrão considerado adequado para carregamento residencial rápido.
Condomínios multifamiliares também passaram a ser obrigados a instalar estações prontas em parte das vagas.
Carros totalmente elétricos puxam avanço
Os pesquisadores observaram ainda que o efeito da legislação foi muito mais forte sobre veículos totalmente elétricos, os chamados BEVs, do que sobre híbridos plug-in.
A adoção de BEVs cresceu 53% após a implementação da política, enquanto os híbridos plug-in avançaram apenas 12%.
A explicação está na dependência direta da recarga doméstica. Proprietários de híbridos conseguem recorrer ao motor a combustão quando não têm acesso fácil a carregadores. Já os donos de veículos totalmente elétricos dependem da infraestrutura residencial para o uso cotidiano.
“O acesso ao carregamento doméstico torna a propriedade de um veículo elétrico mais prática e atraente”, afirmam os autores.
Benefícios ambientais e econômicos
A pesquisa calcula que, se a política fosse expandida para todo o estado de Maryland, ela poderia gerar até 21 mil novos veículos elétricos adicionais nos próximos cinco anos. Em cenários mais conservadores, o número ficaria em torno de 13 mil.
Isso ajudaria o estado a cumprir a meta de atingir 600 mil veículos elétricos em circulação.
O impacto ambiental também seria relevante. Os pesquisadores estimam redução anual de até 111 mil toneladas métricas de CO2 equivalente, além de queda em poluentes associados a doenças respiratórias, como óxidos de nitrogênio e material particulado.

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Outro ponto destacado pelo estudo é o custo relativamente baixo da medida. Segundo os autores, incluir a preparação elétrica durante a construção representa apenas 0,06% do custo total de uma casa unifamiliar e cerca de 0,3% em edifícios multifamiliares.
A desigualdade da eletrificação
Apesar dos resultados positivos, o trabalho revela um efeito colateral importante: os benefícios ficaram concentrados em bairros mais ricos e em regiões dominadas por casas unifamiliares.
Nas áreas de renda mais alta, o impacto da política foi significativamente maior do que em comunidades de baixa renda. Regiões com predominância de condomínios multifamiliares também apresentaram crescimento menor na adoção de veículos elétricos.
Howard County, onde a política foi implementada, é uma das regiões mais ricas de Maryland. A renda média familiar local ultrapassa US$ 149 mil anuais, bem acima da média estadual.
Para os autores, isso evidencia um desafio crescente da transição energética: evitar que a eletrificação do transporte amplie desigualdades urbanas.
“Medidas complementares são necessárias para promover uma adoção mais inclusiva”, alertam os pesquisadores.
Especialistas apontam que moradores de apartamentos enfrentam obstáculos maiores para instalar carregadores privados, enquanto famílias de baixa renda ainda esbarram no alto preço dos veículos elétricos, apesar da queda gradual dos custos.
Novo capítulo da política urbana
A pesquisa reforça uma mudança mais ampla no papel das cidades no combate às mudanças climáticas. Tradicionalmente voltados para segurança estrutural e ocupação urbana, os códigos de construção começam agora a incorporar metas ambientais e energéticas.
Para Jiehong Lou, os resultados mostram que legislações urbanas aparentemente técnicas podem produzir efeitos concretos sobre emissões, infraestrutura e comportamento do consumidor.
Num cenário em que incentivos fiscais federais enfrentam cortes orçamentários nos Estados Unidos, políticas locais de baixo custo podem ganhar protagonismo.
“A implementação ampla de códigos EV-ready pode acelerar a transição para um sistema de transporte mais limpo e sustentável”, conclui o estudo.
Referência
Lou, J., Niemeier, DA Códigos de construção prontos para veículos elétricos e adoção de veículos elétricos. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-72664-6