Tecnologia Científica

Escutando o Universo em frequências esquecidas: radiotelescópios revelam 17 pulsares e mostram uma nova fronteira da astronomia
Estudo internacional transforma sinais quase invisíveis em mapas precisos de estrelas de nêutrons — e abre caminho para a avalanche de descobertas que a próxima geração de telescópios deve trazer
Por Laercio Damasceno - 23/05/2026


Pixabay


No silêncio aparente do espaço, algumas estrelas mortas continuam emitindo batidas regulares, como faróis cósmicos girando na escuridão. Esses objetos — chamados pulsares — são os núcleos ultradensos deixados por explosões de supernovas. Medir a precisão de seus pulsos equivale a manter relógios naturais espalhados pela galáxia. Agora, uma equipe internacional mostrou que sinais considerados fracos ou negligenciados podem ser transformados em informações de enorme valor científico.

Um estudo liderado por D. J. McKenna, do ASTRON – Netherlands Institute for Radio Astronomy, em colaboração com pesquisadores da Trinity College Dublin, do Dublin Institute for Advanced Studies (DIAS) e outras instituições, apresentou soluções temporais para 17 pulsares observados a 150 MHz utilizando a estação irlandesa do LOFAR (Low Frequency Array). Entre eles, sete nunca haviam recebido soluções temporais completas.

O trabalho responde a um problema crescente na astronomia moderna: descobrimos pulsares em ritmo muito mais acelerado do que conseguimos estudá-los.

“Sem medições temporais adequadas é quase impossível identificar os sistemas mais interessantes ou compreender as propriedades populacionais desses objetos”, escrevem os autores.

A pesquisa mostra que uma infraestrutura relativamente modesta, quando utilizada de forma estratégica, pode aliviar um gargalo que ameaça crescer na próxima década.

O problema do excesso de descobertas

A astronomia vive um paradoxo curioso: há telescópios encontrando mais pulsares do que os pesquisadores conseguem acompanhar.

No início do projeto, em 2020, o catálogo internacional de pulsares continha 452 objetos sem medições adequadas de parâmetros fundamentais. Poucos anos depois, esse número saltou para 743 e depois 957 fontes sem derivadas de período medidas — elemento essencial para compreender a evolução desses corpos.

Grande parte desse aumento resulta do desempenho impressionante do radiotelescópio chinês FAST (Five-Hundred-Metre Aperture Spherical Telescope), atualmente uma das máquinas mais sensíveis do planeta para detectar novos pulsares. O problema é que descobrir um objeto não significa compreendê-lo.

Os cientistas precisam acompanhar essas estrelas repetidamente ao longo do tempo, registrando variações minúsculas em sua rotação. Esse processo é conhecido como timing pulsar.

É um trabalho longo, exigente e que consome horas preciosas de observação.

Uma aposta em frequências baixas

A equipe decidiu explorar uma alternativa: usar o LOFAR, rede internacional de antenas distribuídas pela Europa e especializada em baixas frequências.

Entre 2020 e 2023, os pesquisadores observaram 33 candidatos a pulsares.

Os resultados chamaram atenção: 22 apresentaram emissão detectável, 17 foram escolhidos para monitoramento prolongado, cerca de 590 horas de observação foram acumuladas e foram produzidas soluções temporais coerentes para todos os objetos monitorados

As propriedades observadas revelaram uma diversidade impressionante:

- Períodos de rotação entre 0,04 e 3,53 segundos
- Fluxos de emissão entre 1,6 e 90,8 miliJanskys
- Ciclos ativos variando de 1% a 13,8%

Além disso, cinco pulsares mostraram sinais de comportamento intermitente ou de “apagamento” temporário, fenômeno conhecido como nulling.

Relógios extremos do Universo

Entre os casos mais intrigantes está o PSR J1327+3423, um pulsar de apenas 41,5 milissegundos por rotação.

Sua velocidade impressionante sugere que ele pode pertencer à categoria dos pulsares reciclados — estrelas que foram aceleradas após capturar matéria de uma companheira estelar.

Outro objeto que chamou atenção foi o PSR J1536+1759, detectado em apenas 55% das observações realizadas, sugerindo comportamento extremamente variável ou intermitente.

Créditos: Henze/NASA

Esses detalhes podem parecer técnicos, mas têm consequências amplas.

Pulsares são usados como laboratórios naturais para testar física em condições impossíveis de reproduzir na Terra. Sua precisão permite investigar: propriedades da matéria ultradensa; comportamento extremo de campos magnéticos; estrutura do meio interestelar e ondas gravitacionais de baixa frequência.

Pequenos desvios em seus pulsos podem revelar fenômenos fundamentais do Universo.

Preparando-se para a próxima explosão de dados

Talvez a mensagem mais importante do estudo não esteja em um pulsar específico, mas no que virá a seguir.

Os autores destacam que o número de descobertas deverá aumentar ainda mais com a entrada em operação do Square Kilometre Array (SKA), considerado o maior projeto de radiotelescópio do mundo atualmente em construção.

“Nós demonstramos a eficácia das estações internacionais do LOFAR para estabelecer soluções temporais para pulsares recém-descobertos”, concluem os pesquisadores. “À medida que a taxa de descoberta acelera, a necessidade de outros telescópios participarem desse processo se torna cada vez maior.”


Em outras palavras, a astronomia moderna talvez esteja entrando em uma nova era: a era em que o desafio não será mais encontrar objetos no céu, mas compreender rapidamente o que foi encontrado.

E isso pode significar que, em meio a milhões de sinais cósmicos futuros, alguns dos maiores segredos do Universo estejam apenas esperando alguém escutar a frequência certa.


Referência
McKenna, David J., Evan F. Keane, Peter T. Gallagher e Joe McCauley. 2026. “Soluções de temporização de pulsares para 17 pulsares a 150 MHz da estação irlandesa LOFAR.” The Open Journal of Astrophysics 9 (maio). https://doi.org/10.33232/001c.162455 .

 

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