Tecnologia Científica

Pesquisa amplia leque de substâncias promissoras contra doença de Chagas
Cientistas brasileiros e alema£es identificaram três novos compostos com potencial para eliminar o Trypanosoma cruzi
Por Henrique Fontes - 08/05/2020


As moléculas estudadas apresentam novidades: atuam em mais de
uma forma infectiva da doença e também agem de forma
isolada, ou seja, sem nenhum tipo de combinação terapaªutica
 Foto: Henrique Fontes / IQSC

O time de substâncias promissoras contra a doença de Chagas ganhou novos integrantes, segundo um novo estudo realizado pelo Instituto de Quí­mica de Sa£o Carlos (IQSC) da USP. Apa³s análises e testes realizados com dezenas de substâncias, três delas se mostraram eficientes no combate ao Trypanosoma cruzi, parasito causador da doena§a. Os resultados obtidos pelos pesquisadores foram descritos no artigo publicado na PLOS Neglected Tropical Diseases, revista cienta­fica de alto impacto internacional que trata sobre doenças negligenciadas.

Segundo informações do Ministanãrio da Saúde, estima-se que existam aproximadamente 12 milhões de portadores da doença de Chagas nas Amanãricas, e que haja no Brasil, atualmente, pelo menos um milha£o de pessoas infectadas por T. cruzi.

O trio de novos compostos, que neste trabalho foi aplicado em células infectadas pelo parasito, junta-se agora a outras três moléculas criadas anteriormente na USP e que já estãoem fases mais avana§adas da pesquisa, passando por testes em animais. “Na³s conseguimos ampliar o número de substâncias potencialmente bioativas contra o Trypanosoma cruzi. Além disso, foi possí­vel comprovar que a classe de compostos que trabalhamos hános realmente éeficiente no combate ao parasito. Avana§amos um degrau em direção a s próximas etapas do estudo”, explica Carlos Alberto Montanari, professor do IQSC e coordenador do Grupo de Quí­mica Medicinal e Biola³gica (NEQUIMED) do instituto.

A grande vantagem de ampliar o conjunto de moléculas com perfil promissor para o tratamento da doença de Chagas podera¡ ser observada a partir dos testes em animais. Nesta fase, além das substâncias terem que demonstrar efica¡cia, elas não podem gerar efeitos ta³xicos. “Sa£o duas funções que devem ser cumpridas de forma simulta¢nea, mas nem sempre isso acontece. No entanto, tendo em ma£os um número maior de substâncias ativas contra o Trypanosoma, nossas chances de sucesso aumentam, pois não dependera­amos de uma única alternativa”, explica Montanari, que contou no estudo com a colaboração de pesquisadores da Alemanha e da Faculdade de Ciências Farmacaªuticas de Ribeira£o Preto (FCFRP) da USP.

Pesquisadores do IQSC testaram dezenas de substâncias contra o Trypanosoma cruzi
 Foto: Henrique Fontes / IQSC

Uma novidade das moléculas mais recentes, exibidas no artigo cienta­fico, éque elas atuam em mais de uma forma infectiva da doença e ainda agem de forma isolada, ou seja, sem nenhum tipo de combinação terapaªutica, como acontece com as substâncias que estãosendo testadas em animais, que são combinadas com o benzonidazol, fa¡rmaco padrãoutilizado no tratamento de Chagas. “Conseguimos aprimorar a qualidade útil das nossas substâncias”, afirma o docente da USP. Embora os resultados sejam animadores, Montanari não descarta realizar estudos que combinem o benzonidazol com as três novas moléculas a fim de avaliar os efeitos da mistura, principalmente em seres vivos. “Já seria a³timo se consegua­ssemos reduzir a dosagem do medicamento em uma eventual combinação”, explica o especialista.

Como as moléculas atuam?

Constitua­das basicamente de aminoa¡cidos quimicamente modificados, as substâncias estudadas pelo NEQUIMED no combate a  doença de Chagas tem uma estratanãgia em comum para controlar a enfermidade: inibir a função biológica da cruzaa­na, enzima responsável por fazer a digestãodas protea­nas do hospedeiro (ser humano) e gerar energia ao parasito. Anulando essa atividade, a expectativa éde que o Trypanosoma seja eliminado.

Apesar do benzonidazol ser eficiente na fase aguda da doena§a, ele não apresenta resultados efetivos contra a enfermidade em sua fase crônica, além de gerar uma sanãrie de efeitos colaterais ao paciente, como urtica¡ria, na¡useas, perda de peso, redução do número de gla³bulos brancos, entre outros. “Por esse motivo, muitas vezes as pessoas optam por abandonar o tratamento”, revela Montanari. Silenciosa, a doença de Chagas normalmente étransmitida por meio do contato ou ingestãode fezes contaminadas do inseto barbeiro (que reapareceu recentemente em algumas regiaµes), podendo ficar décadas sem se manifestar no organismo. Quando os sintomas aparecem, no entanto, o indiva­duo infectado pode sofrer graves complicações, como o alargamento dos ventra­culos do coração.

NEQUIMED estuda classe promissora de compostos no combate a  doença de Chagas
 Foto: Henrique Fontes / IQSC

Além de não serem ta³xicas, as substâncias desenvolvidas no IQSC já mostraram em testes realizados com camundongos em 2018 que, quando associadas ao benzonidazol, são capazes de atuar em ambas as fases da doena§a, abrindo caminho para a obtenção de um tratamento mais eficaz e, possivelmente, menos agressivo. Neste momento, os cientistas trabalham na chamada fase farmacocinanãtica dos estudos em animais, etapa em que eles investigam como o organismo do ser vivo reage a  ação da terapia combinada. Apa³s dois anos de testes, a mistura tem apresentado resultados promissores, com a sobrevivaªncia de até100% dos roedores testados.


Segundo os pesquisadores, um novo projeto tema¡tico visando a  continuidade dos estudos já estãosendo elaborado para que seja proposto a  Fundação de Amparo a  Pesquisa do Estado de Sa£o Paulo (Fapesp), responsável atéo momento pelo financiamento dos trabalhos da equipe. O objetivo dos cientistas éconcluir, em no ma¡ximo cinco anos, os testes que ainda são necessa¡rios em animais e selecionar as substâncias com melhores resultados para as próximas fases da pesquisa.

 

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